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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 28 de Fevereiro de 2007 às 09:22

Olho por olho, dividendo por dividendo

A OPA estava moribunda. Restavam poucas dúvidas e as acções da Sonaecom já incorporavam a desilusão: a desblindagem de estatutos não passaria na assembleia geral de sexta-feira. Não a 9,5 euros. Nem a 10,5 euros.

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A OPA estava moribunda. Restavam poucas dúvidas e as acções da Sonaecom já incorporavam a desilusão: a desblindagem de estatutos não passaria na assembleia geral de sexta-feira. Não a 9,5 euros. Nem a 10,5 euros.

A resposta de Henrique Granadeiro, a eloquência de Zeinal Bava, a estratégia do BES funcionaram. A última revisão de dividendos e "share buyback" não foi uma "brincadeira", como lhe chamou Paulo Azevedo. Foi um "penalty" que deu em golo.

Estamos no domínio dos grandes accionistas. Tanto a Sonaecom como a PT acreditam que, se a OPA chegar ao mercado, pelo menos 50% do capital vende. Por isso, a disputa está na secretaria. Na assembleia geral.

Granadeiro dera uma chusma de dinheiro aos accionistas para que não vendessem. Estava a falar para os grandes, que fazem contas a dividendos a três anos; não para os pequenos, que olham para o preço de venda. E, nessa linguagem dirigida aos grandes, a PT prometera dividendos em "cash" e em espécie, mais uma recompra de acções. Ou seja, dinheiro em dividendos mais dinheiro em acções da PT Multimedia mais dinheiro para quem quisesse vender as acções no "buyback".

A Sonaecom vociferou, acusou a Portugal Telecom de subornar os accionistas sem oferecer qualquer alternativa estratégica. E o que fez? O mesmo.

Ontem, a Sonaecom capitulou e cobriu a oferta de Henrique Granadeiro. Quem quiser sair, vende a 10,5 euros. Quem quiser ficar, recebe o mesmo pacotão de dividendos. A Sonaecom compra a táctica defensiva da administração da PT, apropria-se dela, divide a sua oferta em dois alvos, usa o feitiço do outro feiticeiro e pede que lhe desblindem os estatutos. Voilá!

Os olhos viram-se agora para a Sonaecom, para a CMVM e para o BES. E os três são postos à prova.

Primeiro, a CMVM, que apreciará agora a nova proposta da Sonaecom, depois de ter dito que jamais autorizaria um novo aumento do preço. Henrique Granadeiro, desconfiado, bem questionou o regulador sobre se autorizava uma eventual revisão das condições da oferta, por mais camuflada que fosse. Carlos Tavares, prudente, não respondeu por entender que já havia respondido, assim se descomprometendo. Se a CMVM considerar que a Sonaecom nunca se comprometeu com os dividendos a distribuir pela PT (o que oficialmente é verdade, embora o administrador Luís Reis tenha afirmado a este jornal no Verão que a PT não distribuiria dividendos durante cinco anos se a OPA tivesse sucesso), então o plano passa.

Segundo, o BES e os seus amigos da Ongoing mostrarão se era de facto o projecto estrangeirado e talhante da Sonaecom que os incomodava, ou se no final é mesmo tudo uma questão de dinheiro.

Para a Sonaecom não há dúvidas: é mesmo uma questão de dinheiro. Assim foi quando quebrou uma promessa e subiu o preço para 10,5 euros. A cambalhota é agora outra: sem formalmente mexer na proposta da OPA, melhora-a para quem quiser não vender. Agora não foi loucura, foi negócio mesmo.

No tudo ou nada, a Sonae escolheu o tudo. Mas o contorcionismo não é o único atributo da Sonaecom. Porque é preciso saber que engenharia permitirá tanta dívida e tantos dividendos. Que equação impossível encontrou a Sonaecom para este Ovo de Colombo?

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