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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 13 de Junho de 2012 às 23:30

Por milhões de cheques-Merkel!

É preciso tirar o chapéu a Nouriel Roubini. Numa única frase criou um sound-byte e deu três aulas, uma de macroeconomia, outra política europeia e outra ainda de liderança.

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É preciso tirar o chapéu a Nouriel Roubini. Numa única frase criou um sound-byte e deu três aulas, uma de macroeconomia, outra política europeia e outra ainda de liderança. Dar um cheque-viagem a cada família alemã para gastar em férias num país intervencionado, como propôs, seria uma extravagância e não resolveria a crise. Mas a ideia é suficientemente poderosa para se falar dela como de um Plano B.

Entretenhamo-nos por algumas linhas. Se, imaginemos, dez milhões de famílias alemãs gastassem mil euros em férias em Portugal, entraria em Portugal o equivalente a quase 6% do PIB. As exportações portuguesas aumentavam, reduzia-se o nosso défice externo, aumentava o produto interno bruto e haveria mais criação de emprego. Eventualmente, perante um aumento localizado da procura, os preços de alguns bens e serviços aumentariam (mais inflação), mas todos os outros impactos seriam positivos. Já na Alemanha, os indicadores funcionariam ao contrário: haveria menos excedente externo. Agora imagine que é alemão e pergunte-se: por que raio haveria de fazer isso?

Esta é a resposta difícil de dar: explicar aos alemães, que votam e pagam impostos, por que hão-de alegremente fazer transferências da riqueza que criam para outros países. Um excedente externo também é um desequilíbrio, mas tomara aos países deficitários tê-lo.

A macroeconomia é uma ciência mais complicada do que parece. Falar de descida de salários, por exemplo, não é defendê-lo, é constatar que é precisamente isso que está a acontecer em milhares de empresas, ou por acordos transitórios de urgência, ou através do desemprego. Assim é também em relação às transferências internas na União Europeia, que o Presidente Cavaco Silva defende desde o final do Verão passado. Que Roubini defende todos os dias. E Paul Krugman. E tantos outros.

Há ferramentas de política económica para produzir resultados sem que seja necessário passar cheques-Merkel para alemães nomeados voluntários como turistas. É aliás disso que Roubini fala. Dar aumentos salariais na Alemanha, o que aumentaria o poder de compra e a inflação, o que de caminho tornaria os produtos da periferia mais competitivos dentro da zona euro. Descer as taxas de juro, para promover o consumo (em vez da poupança) e o investimento. No fundo, pôr os alemães a comprar-nos coisas.

É compreensível que um alemão se arrepie com esta ideia. Mas é essa pedagogia que tem de ser feita na chancelaria, por razões macroeconómicas de interdependência, mas também por razões de história europeia, que revela como os desequilíbrios entre povos descambam em conflitos fulminantes. Se tudo falhar, também é possível explicar como os dez mil milhões de euros aplicados em férias em Portugal seriam depois gastos pelos portugueses. Possivelmente, a comprar BMW, Mercedes e Volkswagen.


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