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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 10 de Julho de 2007 às 13:59

REN ne va plus?

Duzentos mil investidores compraram acções da REN. É uma imensidão de gente, para quem esta empresa da velhíssima economia se tornou tão sexy como Scarlett Johansson. Com uma diferença: são mais os que conhecem a actriz do que os que sabem o que faz a REN

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A REN é a partir de hoje a segunda sociedade cotada com maior número de accionistas. Tem o dobro da PT e da Galp. Mais do que o BCP. Só tem menos que a EDP. E todos esperam uma estreia auspiciosa em Bolsa, o que os analistas dão como provável. Não porque a empresa valha muito mais. Mas porque os investidores institucionais querem ter mais destas acções no seus cabazes e haverá um desequilíbrio inicial na procura.

Este surto de procura explica-se mais pelo momento do que pelas capacidades sedutoras do Eng.º Penedos: há grande euforia, vontade de entrar numa Bolsa que sobe há quatro anos, após uma venda da Galp e de uma subscrição da Martifer que valorizam à semana. Mas agora nós: a REN é diferente.

Foi o próprio Eng.º Penedos que ontem lançou o anticlímax, avisando que não há espaço para valorizações espectaculares: esta é uma acção defensiva, não é especulativa. E como diz uma regra de ouro, quanto menor é o risco de um activo financeiro, menor é a rendibilidade esperada.

Medida por risco, a REN não é uma acção, é uma obrigação de “rating” elevado. Tem uma rendibilidade garantida. Toda a sua actividade está regulada (toda!). Mais ou menos transporte de energia não significa mais ou menos receita. A margem (não o preço: a margem) está definida por contrato. Não podendo reinvestir livremente os lucros, entrega-os aos accionistas: este monopólio vai pagar os dividendos mais altos da Bolsa portuguesa: quem comprou acções na OPV (2,75 euros) recebe em dividendos de 6% ao ano. Não há banco que pague isto num depósito a prazo. Nem obrigação sem risco com taxa tão alta.
 
É este o atractivo destas acções: vai ser a acção mais defensiva da Bolsa portuguesa. Joe Berardo jamais meterá um cêntimo nestas acções, mas um investidor conservador, de longo prazo, que queira uma carteira diversificada, quererá mantê-las para compensar-se num mercado tão volátil como o nosso.

Depois do ajustamento dos primeiros dias em Bolsa, é bom que a saciedade dos investidores conheça esta condicionante: com a REN bem gerida não se enriquece. Nem se empobrece.

Só mesmo uma gestão incompetente ou um Governo metediço poderá estragar a REN. E aí, a dupla tutela não augura nada de bom. Além do lamentável episódio em que o ministro da Economia prometeu dividendos da Galp a Américo Amorim, no que o ministro das Finanças hesitou (e com razão, como veio a decidir-se em arbitragem), ontem ambos mostraram uma total falta de sintonia: questionados, no mesmo local e à mesma hora, sobre se o Governo estava surpreendido com o sucesso da OPV, um disse “sim” o outro disse “não”; e quanto à próxima fase de privatização, Teixeira dos Santos admitiu que será este ano, Manuel Pinho disse que tal era especulação.

Razões terá o presidente Penedos parar querer o Estado fora dali: quer gerir sem ministros. E razões terá também o ex-regulador Jorge Vasconcelos para querer a empresa controlada pelo Estado: quer as redes estratégicas imunes a pressões bolsistas.

No fundo, ambos querem prevenir o inevitável: o conflito entre uma empresa que convida accionistas e que terá, quando o tempo chegar, de lhes impor “interesses nacionais” subtraindo-lhes valor. A Endesa já saltou fora deste barco. Não quer entrar a estes preços. Nem empresas que não são carne nem peixe. Nem a Scarlett Johansson.

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