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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 02 de Dezembro de 2010 às 11:57

Sacanas sem lei

Dia sim estamos salvos, dia não estamos perdidos.

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Dia sim estamos salvos, dia não estamos perdidos. A soberania financeira de Portugal é um chocalho em caprichosas mãos externas, umas mais invisíveis do que outras. Mas nenhuma está preocupada com Portugal. Se nos resignarmos a essa pequenez, seremos um mero dano colateral.

A tese de que o mundo inteiro se uniu para nos tramar já aqui foi várias vezes contestada. Pensar em "mercados" que fazem "ataques especulativos" concertados contra Portugal é telenovela para expiar os nossos pecados. O mercado da dívida do euro é grande de mais para tal articulação. O que há é poucos investidores dispostos a emprestar dinheiro a um país sobre-endividado e sub-produtivo, e os que há não o fazem se não a alto preço. Ainda ontem Portugal pagou mais de 5% por Bilhetes do Tesouro a um ano (5,281% a um ano!), mesmo com, supõe-se, ajuda do Banco Central Europeu.

Teorias de conspiração à parte, há muito lucro na queda de Portugal e há actores que tudo parecem fazer para acelerar a condenação. Nem Ghandi acreditaria na coincidência de a Standard & Poor's lançar um alerta para baixar o "rating" a Portugal doze horas antes de uma emissão de Bilhetes do Tesouro.

Na terça-feira, o caldo entornou-se com o alerta da Standard & Poors. Ontem, rejubilou-se com a expectativa de ajudas do BCE, que pode assumir que se americaniza e que vai passar a comprar obrigações dos Estados. Mas hip hip e pouco hurra, que hoje pode ser diferente. É difícil saber em quem acreditar. Nas agências da "rating", as tais que validaram activos tóxicos? No FMI, que acaba de reconhecer que também falhou no reconhecimento dos riscos da banca irlandesa? Nos testes de stress, que afinal terão de ser mais exigentes?

É pois sempre por afirmações e decisões externas que Portugal ora arriba, ora amocha. Reconhecimento da nossa impotência? Não: resignação de quem já entregou o seu destino. O que fez o Governo para garantir que a execução orçamental de 2011, que começa daqui a um mês, vai ser melhor que a derrapagem dos últimos seis meses? Se fez alguma coisa, não se sabe o quê. E não saber é igual a não existir, para efeitos de percepção externa.

As medidas de austeridade não são cedências de Portugal a "agendas neoliberais dos mercados". Esses já arquivaram o processo Portugal no capítulo da ajuda externa. Os PEC são sim tentativas ditadas pela Comissão Europeia e pelo FMI para que esses credores acreditem que vamos pagar o que lhes devemos e começar a crescer depois.

É este trabalho que temos que fazer, se ainda queremos ser nós a comandar esta nau. Porque os bancos de investimento internacionais que nos analisam e as agências de "rating" que nos avaliam já só pensam em Espanha e dormem sem pesos na consciência.

Quando Goldfinger lhe aponta o raio laser, James Bond pensa que está a ser ameaçado. "- Tu esperas que eu fale?". A resposta é célebre: "- Não, eu espero que tu morras." Assim é com os nossos credores: não estão a pressionar-nos para cortar salários ou aumentar impostos, estão é à espera que capitulemos e accionemos o botão de pânico. Até porque pensam, como Goldfinger, que não há nada que possamos dizer-lhes que eles já não saibam*. Infelizmente, estamos a dar-lhes razão e não convencemos ninguém. Nem a nós próprios.


* Tradução livre. No original o diálogo é:
"- Do you expect me to talk?
- No, Mr. Bond, I expect you to die. There is nothing you can talk me about that I don't already know."
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