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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 16 de Novembro de 2010 às 12:19

Sigamos Amado, o doido

Se Kafka se reunisse com Fellini na casa de Dalí para aconselhar D. Sebastião numa invasão psicadélica à Atlântida, a lucidez talvez fosse maior.

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Em Portugal, enlouquece-se. E, no entanto, o destino é claro e inexorável. Como diz Luís Amado.

Na Europa, os governantes comportam-se como condutores stressados. Chutam para o lado que estão virados. Em França, demite-se o Governo à sexta para reconduzi-lo na segunda. Em Itália, os escândalos sexuais do primeiro-ministro afastam os seus aliados. Na Alemanha, a chanceler desfaz o passado do multiculturalismo na mesma passada em que dissolve o futuro no sectarismo.

Em Portugal, é outro virote. O TGV é bem-me-quer ou mal-me-quer, depende do dia. Nas Estradas, o modelo de financiamento para a concessão de 75 anos é mudado depois de três. Faltam juízes e médicos mas juízes e médicos correm às reformas para garantirem pensões melhores. Os funcionários das Finanças denunciam que os funcionários das Finanças só perseguem os fracos. O Banco de Portugal baixa salários menos do que o Estado e diz que é "para dar o exemplo". No Parlamento, negoceia-se há semanas a criação de grupos de trabalho para preparar estudos que analisarão propostas possíveis de abordagem eventual à crise - é como um nadador-salvador ver alguém a afogar-se no Guincho e criar um grupo de trabalho para decidir se vai em bruços, "crawl" ou na prancha.

Esta cacofonia insana tem explicação: os políticos que sabem como sair disto não querem dar a cara; os que dão a cara não sabem como sair disto. Se o PS alija responsabilidades e o PSD não as partilha, é porque já não acreditam na capacidade de resolverem o problema. Mas se já desistiram, que diremos nós?

Luís Amado é dos poucos que ainda dizem que o caminho mais curto entre dois pontos é um segmento de recta. A entrevista do fim-de-semana ao "Expresso" é um fôlego de lucidez no meio desta garotice. O ministro dos Negócios Estrangeiros diz o que nem os seus querem ouvir, mas que deveríamos querer nós: que o País precisa de acordo político urgente e o mais rápido é havê-lo sem eleições; diz que de outra forma seremos intervencionados e corremos o risco de exclusão do euro; diz que a nossa situação política é aberrante. Tirando a fra(n)queza de dizer-se saturado de governar, tudo deve ser sublinhado. Está tudo certo. Só há uma coisa estranha nesta entrevista: que não tenha sido o Presidente da República a dá-la. Porque aquelas são palavras de estadista.

Amado é dos que falam baixo para serem ouvidos. Quando no início do ano falou em constitucionalizar os limites do défice, foi acusado de querer facilitar a perda de autonomia de Portugal. E, no entanto, seria melhor auto-regularmo-nos do que, por facilitismo e incompetência, sucumbirmos à regulação externa e extrema de hoje. Já perdemos a soberania. Só não perdemos a sobranceria.

As palavras de Luís Amado tiveram o vil tratamento de outras. São rechaçadas pelo próprio PS. E são dizimadas pela oposição, que ontem voltou a dar o triste espectáculo de procurar a contradição da vírgula em vez de ouvir a dicção do ministro. Terão sequer lido mais que o título da entrevista de Amado?...

Portugal precisa de um acordo político, que deveria ser uma coligação, o que provavelmente custa a cabeça de José Sócrates e devia custar a cabeça de alguns emergentes que rodeiam Passos Coelho. Esse acordo é o patamar mínimo para garantir a "nossa" parte, a de aprovar um Orçamento, blindá-lo numa "tolerância zero" contra todas as pressões e excepções e cumpri-lo a partir de 1 de Janeiro com a exactidão de um relógio suíço. Porque as medidas previstas são as necessárias para a primeira parte deste resgate, a que se seguirão reformas estruturais na Justiça, na educação, etc. São estas, sejam nossas ou do FMI.

"Se a recta é o caminho mais curto entre dois pontos, a curva é o que faz o concreto buscar o infinito", dizia Oscar Niemeyer. Só temos tempo e dinheiro para o concreto. E como conhecemos o ponto de partida e o de chegada, basta seguir Amado, o doido. Sim, o doido, pois como concluiu Mário de Sá Carneiro, se na terra dos cegos quem tem um olho é rei, "na terra dos doidos quem tem juízo é doido."



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