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Pedro Santos Guerreiro psg@negocios.pt 30 de Junho de 2010 às 09:24

Tudo tem um preço

É hoje. É hoje que os accionistas da Portugal Telecom decidem o que vão fazer à empresa. Não é a Vivo que está em causa. É a PT. É hora de investir ou de facturar? Vote, se faz favor. Este pode ser o negócio da vida deles.

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É hoje. É hoje que os accionistas da Portugal Telecom decidem o que vão fazer à empresa. Não é a Vivo que está em causa. É a PT. É hora de investir ou de facturar? Vote, se faz favor.

Este pode ser o negócio da vida deles. Com o quórum previsto, e se a Telefónica não puder votar, então o "núcleo duro" português é que vai mesmo decidir. Os seus 27% conhecidos, que serão, na verdade, quase 35%, chegam para ganhar. Querem ganhar o quê? Muito dinheiro garantido já? Ou muito dinheiro talvez no futuro?

Numa negociação típica entre duas partes que disputam um activo, cada parte tem um preço de referência que a outra desconhece: o potencial comprador definiu um preço até ao qual está disposto a pagar; o eventual vendedor acerta o preço a partir do qual aceita fechar o negócio. O espaço entre estes dois preços é o intervalo de negociação. E aquele que conseguir forçar a outra parte a aproximar-se mais do preço de referência é o melhor negociador. É por isso que "tudo na vida tem um preço".

Ao longo das últimas semanas, grande parte dos accionistas não fez outra coisa que não fosse negociar. Foi dizer à Telefónica que sabiam que ela podia pagar mais. Daí algumas subtilezas, como quando a Brandes disse que a oferta não reflectia o valor estratégico da Vivo... para a Telefónica. Subam preço.

O discurso inicial da defesa do centro de decisão nacional foi o primeiro argumento para arregimentar uma nação. Uma argumento plastificado, como se viu. Mas os espanhóis foram tão inaptos, tão agressivos e tão hostis (e tão desesperados?) que conseguiram a proeza: a mesma PT que tinha formato de polvo passou a caravela. Até os deputados desejaram boa sorte a Zeinal no fim da Comissão Parlamentar de Inquérito.

Ninguém sabe tudo o que se passou nestas semanas. Conhecemos a versão da PT, não a da Telefónica, que não no-la quis dar. Mas a Telefónica só subiria preço se tivesse garantia de que lhe vendem, não subiria se não a tivesse. Para humilhação já bastava como estava.

Se a PT não vender, o problema da divisão de poder no Brasil continua estacionado. Mas acabou-se a farsa da Telefónica na PT. Era gente que cordialmente se detestava. Agora é gente que não se respeita.

E Portugal, o que tem a ganhar ou a perder com isto? É ou não apenas uma questão empresarial? Citando a velha frase da General Motors, o que é bom para a PT é bom para Portugal?

É claro que não. A PT é "o Euromilhões dos seus accionistas", como escreveu o "Expresso" num trabalho premiado. Porque estes accionistas do "núcleo duro" têm rendas na PT. Esta é, pois, a altura em que estes accionistas mostram se vão pagar as dívidas do passado, se vão viver para o presente ou se vão acreditar no futuro. Porque os accionistas não vão decidir o que é melhor para a PT, vão decidir o que é melhor para si.

Se vender a Vivo, a PT ficará mais pequena na proporção em que entregar dividendos. E o que restar para reinvestir dificilmente o será no Brasil, pois esse comboio já passou. O melhor para a PT é não vender. A Vivo esteve quase a engolir a PT no buraco negro do seu défice, foi uma década de sangria perdulária. Agora que finalmente a empresa se vai tornar uma vaca leiteira de dividendos, a PT vende? A proposta da Telefónica equivale a 60 anos dos dividendos pagos pela Vivo em 2009. Ou a seis anos de dividendos a distribuir em 2014. É a diferença.

Tudo tem um preço. O da PT não é este. Mas o dos seus accionistas pode sê-lo. Vamos a votos.

psg@negocios.pt



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