Rui Patrício
Rui Patrício 03 de setembro de 2019 às 09:30

A Amazónia vista do alto por Anísio Teixeira 

Venho de estanciar uns dias no Brasil, não nas praias e nas paisagens de férias, de postagens e de encenações para "tutti quanti" verem e acreditarem que é "a" verdade, mas no interior da Bahia, em descoberta - das terras e das gentes e, também, das várias camadas da cebola que é a vida e que somos nós nela.

No alto sertão da Bahia, fiquei em Caetité, e aí visitei a Casa Anísio Teixeira, que pretende homenagear a memória e o trabalho de uma figura que, entre o mais, se bateu pelo papel fundamental que a educação (de problematização e de compreensão) tem para os indivíduos e para as sociedades. Nessa mesma Casa, um dos responsáveis queixou-se-me de que cada vez há menos requisições na biblioteca, e, por outro lado, o meu percurso pelo Brasil coincidiu em parte com o tempo em que se desenrolam os infaustos acontecimentos na Amazónia (fogo, desmatação, questão indígena, etc.), bem como a discussão pública sobre eles. E logo pensei: e se Anísio Teixeira observasse uma coisa e outra, em especial a discussão sobre o tema - se observasse do alto, não de um qualquer lugar além para onde iriam os mortos, que não acredito nisso, mas do alto da sua visão e do seu saber?

Se observasse, julgo que Anísio lamentaria por certo a tragédia do que está a ocorrer, e saberia que bem mais importante do que saber se a culpa é de A ou B é o acontecimento em si, e procuraria fazer ou dizer algo para parar o avanço da tragédia. Lamentaria que, entre palavras de um lado e palavras de outro - algumas, tonterías tão graves quanto risíveis (a começar por ditos do Presidente brasileiro, embora este não tenha o exclusivo) -, nada se fizesse e a coisa fosse avançando, inexorável. Anísio, cultor da verdadeira educação, a que prepara para a reflexão e para a dúvida trabalhosa e construtiva, observaria e lamentaria também a vozearia superficial, maniqueísta, alimentada pelo radicalismo e pela visão parcial e engagé de um lado e de outro, a maior parte das vezes, e sobretudo pela falta de aprofundamento, de reflexão, de verdadeira curiosidade, de estudo e de trabalho que marca muitas das opiniões e discussões, públicas ou privadas, dos dias de hoje. É como se tudo fosse tão simples - e potencialmente enganoso e redutor - como um "tweet" ou uma foto bem enquadrada e encenada no Instagram.

É claro que o Homem será sempre o lobo do (outro) Homem, e do planeta, e até cada um o lobo de si mesmo. E a educação não mata isso. É claro também que a educação não evita a barbárie, como mostra bem a História, ou como, por exemplo, Primo Levi ou George Steiner frisaram a respeito do nazismo. "Et cetera." Não mata, não evita, e só por si também não salvaria a Amazónia. Mas estou convencido, tal como creio que Anísio Teixeira estará lá no alto, de que ajuda muito, e lamento muito, cada vez mais, o crescimento da incapacidade do estudo, do pensamento, da reflexão e da discussão profundos, ponderados, sem maniqueísmos e "pré-conceitos". Gostaria de tudo um pouco mais lento, mais cauto, mais difícil, mais complexo. Não resolveria tudo, mas ajudaria alguma coisa, para não dizer que talvez ajudasse bastante. Daria era trabalho, e não seria certamente tão sedutor como as banalidades e as boçalidades que enxameiam as redes, todas as redes. Excelente palavra para quase terminar este texto, rede: o que prende, o que ilude, o que enreda, o que muitas vezes mata. Há que querer e saber pensar, para as tentar evitar e aos seus possíveis nefastos efeitos. Mesmo que se venha a acabar no fundo do fosso do elevador, como Anísio Teixeira. 

 

Advogado

 

 

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