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Rui Patrício 04 de Fevereiro de 2020 às 09:20

“A pile of little arms”

Arte que é arte perdura no tempo, não tanto fisicamente ou na memória (digamos), mas na sua faculdade de tocar as pessoas, e a arte maior toca-nos de cada vez que tomamos contacto com ela, por mais vezes que a ela regressemos.

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Claro que a uns toca isto, a outros aquilo, e não vamos entrar agora na discussão sobre o conceito de arte e sobre saber o que o é e o que não o é, e o que é maior ou menor. Eu tenho o meu catálogo, que vou alterando aqui e ali ao longo do tempo, riscando, acrescentando, descobrindo, mudando de lugar. Mas “Apocalypse Now” está sempre lá, e como arte maior, seja qual for a versão do filme. E facto é também – e atributo da arte maior, julgo eu – que, de cada vez que a ele regresso, não só fico muito tocado como vejo coisas novas, ou vejo outras já vistas de outra perspetiva, consoante quem sou e o que vivo, vejo e sinto na altura do regresso à magistral recriação de Conrad por Coppola e outros.

Recentemente revi o filme, na versão “final cut”, com dois queridos amigos (passe a redundância). Podia dizer, por exemplo, que vi de forma nova parte das chamadas cenas da “plantação francesa”, mas para isso teria de vos contar a minha vida. Podia dizer-vos que voltei a hesitar sobre o lugar que este filme ocupa na minha meia dúzia de filmes favoritos, o que também acontece quando revejo os outro cinco, mas isso caberia num livro, não numa crónica. Et cetera. Opto por dizer que reparei agora com muito mais profundidade no momento em que o coronel Kurtz conta ao capitão Willard – com a voz de Brando evocando toda a loucura, a descrença e o desespero humanos, de quem já viu tudo e nada mais quer ver, e o “chiaroscuro” de Storaro mostrando que somos tão, tão sombrios nas entranhas – o episódio em que, depois de os americanos terem vacinado um grupo de crianças contra a poliomielite, os vietcongs arrancaram o braço vacinado a cada uma delas e fizeram uma pilha de pequenos braços – “a pile of little arms”, diz Kurtz naquela semirrouquidão lenta de alguém que já está para lá do humano. E depois acrescenta a sua “admiração” por quem fez aquilo, porque só com aquela obstinação, aquele desapego, aquela fria e louca determinação se pode ganhar uma guerra. E acaba por dizer: “Because its judgement that defeats us.” É o discernimento que nos derrota, que nos enfraquece, a capacidade de julgar, de avaliar – e qualquer outra tradução similar serve. Kurtz sabe que a guerra é uma suspensão da humanidade, e ficamos sem saber (embora possamos suspeitar que não) se ele gosta ou não realmente disso, enquanto prenuncia que os americanos perderão.

 

É o discernimento que nos salva, que nos humaniza, que nos permite não fazer pilhas de pequenos braços.

No que Kurtz concordaria, creio eu, pelo menos antes de ser quem se tornou lá no fim do rio, após tudo ter visto e vivido, é que – pelo menos fora de um cenário de guerra (e mesmo aí não sei) – é o discernimento que nos salva, que nos humaniza, que nos permite não fazer pilhas de pequenos braços. E não é discernimento no sentido de inteligência (que, só por si, pode amontoar pilhas e pilhas de braços cortados), mas no sentido de capacidade de pensar, de ver para lá do imediato, de mergulhar abaixo da superfície, de separar o trigo do joio, o essencial do secundário. E de capacidade de sentir, de nos colocarmos no lugar do outro, de empatia. E de respeito. E de afeto. Sim, de afeto. Tudo isso é o discernimento, que pode derrotar o animal, mas salva a pessoa.

E estamos tão precisados de o recordar, nos tempos que correm, e ainda mais nos que muitas vezes se desenham no horizonte. Tempos dominados, frequentemente, pelo sedutor palavreado de loucos, ressabiados, populistas, palhaços ou canalhas, “inter álios”, que antes apenas tinham como palco qualquer “speaker’s corner” num ou noutro Hyde Park, e meia dúzia de espetadores de passagem, e agora têm, nomeadamente nos novos e admiráveis mundos digital ou mediático, ou nos dois, um mundo frenético, sôfrego ou ululante a seus pés. E um mundo pouco dado ao trabalho e à dificuldade do “judgement” (sim, que difícil e trabalhoso é). Talvez seja isso que, realmente, e antes cedo que tarde, nos venha a derrotar.

 

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