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Rui Patrício 04 de Maio de 2020 às 18:56

CO(n)VID(a) – Apontamentos de um bota de elástico

As pessoas precisam de sair, de circular, de interagir pessoalmente (e não falo das que não podem nem pensar em escolher o teletrabalho ...). Não se vive de forma sã e completa numa caverna, mesmo que tenha ecrãs, disfarçando uma espécie de agorafobia coletiva.

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Avançar na idade faz tropeçar no “ai, no meu tempo”, “ai, que saudades”. Não sou muito dado a isso – pelo menos conscientemente, noutras camadas psicanalíticas já não sei –, porque o nosso tempo é sempre essa frágil e efémera ponte entre o passado e o futuro a que chamam presente. Não que não tenha saudades de certas coisas – para já não falar em saudades de algumas pessoas que se vão, pela ceifa ou pelas bifurcações da vida. Ai, que saudades de quando se escreviam cartas, e não se vivia afogado em correio eletrónico; ai, que saudades de quando havia mais tempo para falar e para escutar; ai, que saudades de quando se via mais e olhava menos. Ai, que saudades de quando se tinha saudade do futuro, tão longe. Poderia escrever sobre isso, mas não, apenas venho – agora que é o maio maduro das coisas simples, como na canção do Zeca – convidar a refletir sobre três modas, uma elevada aos altares pela pandemia, e duas retiradas deles pela mesma. Como tudo na vida, têm vantagens e desvantagens, mas eu desconfio de entusiasmos súbitos com coisas que, por um lado, precisam de pensamento longo e de teste e, por outro, põem em causa traços da natureza humana.

A santidade está agora a pender para os lados do teletrabalho. Salva-nos, ao que se diz, na pandemia, e já se sentencia – e antes dizia-se – que será o futuro. Tenho dúvidas. Umas evidentes, outras nem tanto, mas não menos importantes. A comida não se faz nem chega por teletrabalho. A roupa e os sapatos também não. As casas tão-pouco. E por aí fora. E mesmo quanto ao que se pode fazer por teletrabalho – e podendo haver o luxo de nele pensar, porque para muitos nem sequer dá, não é? –, há que parar para pensar um bocadinho e ver se de facto é bem assim, se se faz tão bem, se é bom e saudável, se é seguro. O teletrabalho dispensa o contacto, o cara a cara, a visão global, e isso faz falta em muita coisa. Comunicar não é só falar, ver reclama imediação, compreender exige sentir, cheirar, et cetera. E já nem falo noutras dimensões da vida, que exigem tocar. Claro que não são precisas tantas reuniões, tantas deslocações, claro que aqui e ali o ecrã basta. Mas só em certas coisas e limitadamente. Não se é médico em teletrabalho, nem advogado, nem juiz, nem sacerdote, nem tantas outras coisas, ou pelo menos não se é completamente. Tenhamos calma com as virtudes da mediação, porque a imediação é essencial para muitas vertentes da escalada que é a vida. Profissionais e, mais ainda, pessoais. E, além disso, as pessoas precisam de sair, de circular, de interagir pessoalmente (e não falo das que não podem nem pensar em escolher o teletrabalho ...). Não se vive de forma sã e completa numa caverna, mesmo que tenha ecrãs, disfarçando uma espécie de agorafobia coletiva.

Já basta a ilusão de proximidade das redes sociais, já bastam os mil e um “gadgets” que aproximam mas também afastam e isolam, embora pareça que não. Só faltava agora o novo bezerro de ouro, o teletrabalho, como se os sentidos pudessem viver numa suspensão de acrílico, e as pernas e os braços se pudessem bastar com o caminho que vai do quarto para a cozinha e desta para a sala – se sala houver, claro, porque em matéria de cavernas o sol também nasce diferente para uns e outros. E já nem falo da disciplina, de que o dito teletrabalho pode não ser muito amigo, nem da procrastinação, à qual o mesmo pode ter muito apego, sobretudo com o aconchego de umas pantufas, de um sofá e de outros ecrãs. Longe de mim querer esticar demais o elástico das minhas botas. E, de outro ponto de vista, para quem se queixava, e bem, de estar “sempre ligado” e de a vida ter desaprendido a arte dos tempos, o teletrabalho pode ser mais uma flor no santuário da escravidão digital.

Mas está rei posto, o dito cujo; já vinha a caminho, e a pandemia deu-lhe um grande empurrão. Mas vamos ver se o entusiasmo dura. Quanto a outras maravilhas do mundo novo, agora subitamente reis mortos, veio um vírus, e pumba, lá recuaram do fulgurante caminho anunciado, como aquelas “start-ups” que nascem freneticamente como cogumelos mas que nunca chegam a unicórnio. Falo do “open space” e do “coworking”. Agora é um ai jesus de separação, de barreiras, de vidros, de divisórias. Coisa, aliás, muito natural, porque a pessoa, lá por o ser, não deixa de ser bicho, e todo o bicho gosta do seu território e do seu canto. Gosta e precisa, mesmo sem o vírus que agora nos aparta tanto. E com ele – são as ironias da desgraça – ainda mais. Co(n)vid(o) a que se pense um pouco – tempo e isolamento, pelo menos por agora, não faltam.

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