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Rui Patrício 01 de Junho de 2020 às 19:12

Nureyev, Nilo Argolo e Falstaff: tipos e tropos em “recursos humanos”

Pode-se escolher citar e caminhar por onde se quiser, desde os gregos a Freud, desde os gurus anglo-saxónicos até ao bom senso e à batida vivência dos nossos avós, em especial daqueles que têm olho vivo e não vão em cantigas, sobretudo quando cheira a poder ou a desejo dele.

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Em qualquer organização, maior ou menor, a gestão dos “recursos humanos”, ou dos “talentos” (como agora se diz), e as relações interpessoais são um quebra-cabeças e tanto. Também são desafios, claro, até para alguns algo apaixonante, sem dúvida, mas sempre causa de muita dor de cabeça, de muitos problemas, e, quando os recursos são ronhosos e/ou a gestão é deficiente, podemos ter um ou mais pregos no caixão da organização. Há estudos, receitas, roteiros e gurus sobre o tema para vários gostos e para dar e vender. Creio que já tudo se pensou, disse e escreveu sobre o tema, até porque o mesmo não tem, na teoria (já a prática são “outros quinhentos”), muito que se lhe diga, pois assenta em duas coisas básicas: o que há de pessoa (id e ego) em cada um, e o que nesse mesmo um há de animal, e uma coisa e outra são as mesmas desde que o mundo é mundo, mais coisa menos coisa.

Pode-se escolher citar e caminhar por onde se quiser, desde os gregos a Freud, desde os gurus anglo-saxónicos até ao bom senso e à batida vivência dos nossos avós, em especial daqueles que têm olho vivo e não vão em cantigas, sobretudo quando cheira a poder ou a desejo dele. Eu tenho para mim que nestes temas há duas coisas essenciais, e o resto é bouquet ou paisagem: respeito e regras. Com um mais, que consiste em ser tão intransigente no respeito quanto nas regras. Parece simples de enunciar, mas não é tão fácil assim de praticar. Numa entrevista, creio que de há uns quatro anos, perguntaram a Nicholas Serota, líder do mundo Tate há quase 30 anos, como lidava ele com os egos e as idiossincrasias dos artistas. Ele respondeu que com diálogo e discussão, mas sem condescendência, e principalmente com respeito. Registo em especial, e de par com o respeito, a falta de condescendência (ou outros sinónimos, por vezes tão hipócritas ou cobardes, de pretenso afeto ou de amedrontada ou interesseira diplomacia).

E André Jordan, em entrevista dada, creio, há cerca de dois anos, disse: “... Nas grandes empresas, metade do tempo é gasto em brigas e em meter a faca na quota do outro.” Registo, também. Donde a importância das regras, e da intransigência nas mesmas. E elas têm de ser claras, o seu incumprimento tem de ter consequências, e têm de ser para todos. Por exemplo, elas servem para todos quantos são Nureyev e não percebem que só podem brilhar porque também há compositor, coreógrafo, outros bailarinos e corpo de baile; elas servem, também, para os que o não são, mas julgam que são e agem como tal (pior do que uma prima-dona só uma prima-dona imaginária cuja voz só dá para segundos papéis e para coro); e servem, igualmente, ou ainda mais, para os que invejam tanto Nureyev, que estão, destrutivamente, mais focados nisso do que na sua própria performance.

E as mesmas regras também se aplicam a tantos outros tipos e tropos que podemos ir buscar ao mundo das artes. Por exemplo, Nilo Argolo, a personagem de “Tenda dos Milagres”, de Jorge Amado, o hipócrita, o falacioso, o que proclama o que não é e o que não olha a meios para chegar aos fins, mesmo que eles tenham de ser as falsas virtudes, as falsas regras, as teorias forçadas, a guerrilha (em atos ou ideias), o desgaste, uma lógica de clube ou de tribo, ou, pior do que tudo, a hipocrisia de esconder que é, lá no fundo, aquilo que não quer que se saiba, mas que, querendo ver, está bem visível. Não há “bullying” que valha a Nilo Argolo, nem lhe adianta esconder o apelido Araújo. Pode bradar, gritar, tergiversar, ou tentar arregimentar, que, no fim do dia, se houver regras e se os outros tiverem no sítio o que é preciso para as aplicar, ele acaba com o rabo à mostra. E, a não ser assim, então acabamos a dar razão (e palco, ou, pior, poder) a Falstaff, essa magnífica personagem, misto de defeitos e virtudes, homem e animal; um divertido comilão, beberrão e folgazão, mas também mentiroso, quezilento e mandrião, etc. Diz ele ao Príncipe de Gales em “Henrique IV - Parte I”: “E será a audácia burlada como é hoje em dia pelo freio ferrugento desse velho charlatão que é a lei?” A chave nas organizações está na resposta que elas souberem, puderem e quiserem dar a esta pergunta da personagem shakespeariana. Nem mais, nem menos.

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