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Ulisses Pereira ulissespereira@hotmail.com 18 de Maio de 2020 às 10:13

O “cocktail” venenoso da bolsa portuguesa

Será que não entendem que as consequências de uma crise política nesta altura podem ser enormes?

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Os mercados tiveram uma semana difícil, com quedas fortes, com a bolsa portuguesa a viver um momento especialmente complicado. Há algumas semanas, neste mesmo espaço de opinião, escrevi um artigo intitulado "Os mercados terão agora de enfrentar a realidade" e é esse embate com a realidade, seja ela a da destruição económica, seja ela a do regresso dos dramas políticos, que está a levar os mercados ao fundo.

Deixando a caricata situação política portuguesa para a segunda metade deste artigo, importa esclarecer que mantenho o meu pessimismo em relação aos mercados. Como sempre, os índices norte-americanos costumam ser um farol de referência para os seus congéneres e a semana foi de quedas violentas.

Se bem se recordam, antecipei o ressalto no momento em que a maioria dos norte-americanos foram obrigados a ficar em casa, quando o medo estava no seu auge (no fundo, era apenas pôr em prática tudo aquilo que os livros sempre ensinam - "os mercados sobem no auge do medo"). Esse ressalto foi muito além daquilo que eu esperava, não em termos de duração mas sobretudo em termos de amplitude. E quando a maioria dos Estados norte-americanos começaram a abrir as suas economias, com os mercados a voarem rumo à esperança, voltei a ficar pessimista, antecipando que os mercados teriam de começar a abrir os olhos à dura realidade económica.

É verdade que o peso das grandes acções tecnológicas norte-americanas tem ajudado muito o mercado, dada a sua capacidade para sobreviver nestas crises e para, inclusivamente, algumas delas exponenciarem o seu crescimento com base nesta nova forma de viver. Mas o resto do mercado está a sofrer bastante com o actual contexto económico, mesmo com as constantes acções da Fed de injecção de dinheiro na economia, anunciando até que poderá comprar ETF de "junk bonds", sinalizando que tudo fará para não deixar cair as empresas e a economia.

Uma outra razão para eu ter manifestado o meu pessimismo, tinha a ver com o facto de o S&P - depois da recuperação - estar a cair tão pouco desde o seu máximo, em função de toda a destruição económica que estamos a viver. Na verdade, o mercado vive uma autêntica guerra com os bancos centrais a tentarem segurar a economia, aliando-se à ciência numa corrida contra o tempo para a vacina ou antivirais e, do outro lado, a economia a desfazer-se em pedaços e com o desemprego a voar. Não vejo, por enquanto, qualquer razão para despir o meu fato de urso. Mas não vibro com estas quedas, não fico contente, bem pelo contrário. Se eu estivesse errado, seria um excelente sinal. Seria o prenúncio de uma grande notícia ao nível da saúde ou que as consequências económicas seriam menores do que as que tenho antecipado.

A bolsa portuguesa viveu uma semana terrível. Foi uma mistura explosiva de várias situações. A que teve menos impacto foi a distribuição de dividendos de algumas empresas importantes, o que leva sempre a uma desvalorização do índice, mas o impacto na queda forte que o principal índice português teve na passada semana foi marginal. A queda violenta da Jerónimo Martins na passada quinta-feira ajudou também a esta péssima semana na bolsa portuguesa, reagindo à apresentação de resultados e ao anúncio de corte de dividendo. Como já o disse num vídeo publicado no Negócios, era para mim um mistério que a JM se mantivesse perto do seu máximo histórico, ignorando tudo aquilo que estava a acontecer à sua volta. Foi preciso uma apresentação de resultados, para a fazer cair mais de 10% num único dia. Aliás, é curioso como historicamente a JM é a única acção portuguesa que reage com violência em dia de apresentação de resultados. O BCP fez um novo mínimo histórico, mesmo que os políticos estivessem preocupados com os even
tuais lucros avultados que só existem na sua cabeça. E se condimentos faltassem para este "cocktail" explosivo, houve ainda o episódio Centeno.

Todos saem muito mal desta telenovela. Todos. Marcelo porque fez questão de provocar a crise Centeno, sabendo das consequências políticas que aquelas declarações teriam. Costa errou, naturalmente, ao ter dito no Parlamento que nenhuma transferência para o Novo Banco seria feita antes da divulgação dos resultados da auditoria. Centeno erra por ter aceitado participar neste segundo Governo de António Costa, quando a sua vontade era a contrária e apenas o fez porque queria terminar o seu mandato no Eurogrupo. E a oposição, juntamente com Marcelo, erra ao provocar uma crise política num momento em que o país vive uma crise económica gravíssima (já nem falo na sanitária). Mas não resistiram ao cheiro a "napalm".

Será que todas as pessoas acima citadas (que basicamente são todos os actores que dominam a cena política em Portugal) não entendem que as consequências de uma crise política nesta altura podem ser enormes? Que se não fosse o BCE estar na linha da frente a assegurar que os juros da dívida pública não subam muito, já estaríamos com a corda ao pescoço depois desta notícia?

Não foi por acaso que a bolsa portuguesa foi a que mais caiu na última quinta-feira, depois daquele final de quarta-feira, ao nível da mais intriguista telenovela. Todos os actores políticos portugueses contribuíram para o ingrediente que faltava acrescentar a este "cocktail" venenoso. A bolsa portuguesa já tinha razões fortes para cair, como tenho vindo a apontar. Não precisava de mais, senhores políticos.


Artigo escrito em 08/05/20 às 12h40
Fontes: https://live.euronext.com/pt/

Ulisses Pereira não detém qualquer dos ativos analisados. Deve ser consultado o disclaimer integral aqui,onde também pode ser consultada a lista com as anteriores análises de Ulisses Pereira.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico



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