Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 21 de março de 2016 às 10:31

A última aberração da Bolsa portuguesa

Vamos ver se esta decisão, ao contrário do esperado, não poderá ter consequên-cias negativas no futuro do Montepio.
Durante muitos meses, fui extremamente crítico com a ausência de acções no PSI-20. Sugeri, inclusivamente, que se alterasse a designação do índice para não parecer tão ridículo. Mas a recente decisão da Euronext em colocar três novos elementos, sendo que um desses novos componentes não é uma acção, deixou-me perplexo e coloca ainda mais a nu as fragilidades do mercado de capitais.

Mas deixem-me começar pela admissão da Sonae Capital (além da Corticeira Amorim) ao PSI-20. Terá sido coincidência que, nos dias que antecederam esse anúncio, a acção - tradicionalmente pouco volátil - tenha subido cerca de 25%? Não acredito em coincidências neste género de coisas e, infelizmente, é um padrão já visto em anteriores ocasiões. Alguém, uma vez mais, ganhou dinheiro com uma informação que só mais tarde chegou a todos. A história repete-se. Quantas mais vezes assistiremos a este filme?

Quando li que o Montepio passaria a pertencer ao PSI (vou omitir o número para não soar ridículo) fiquei incrédulo. Confesso que a minha ignorância não me permitia saber que instrumentos financeiros que não fossem acções poderiam pertencer ao principal índice do mercado (accionista!) português. Pelos vistos, legalmente é possível e a decisão nem é original no contexto europeu, mas para mim é mais uma machadada na credibilidade da bolsa.

Se pensarmos que estas unidades de participação de capital do Montepio acumulam cerca de 40% de perdas para os seus detentores e que a CMVM, há cerca de um ano atrás, manifestou sérias reservas face a este produto, mais incrédulo fico com a decisão tomada de incluir estas unidades de participação no PSI.

Vamos ver se esta decisão, ao contrário do esperado, não poderá ter consequências negativas no futuro do Montepio. Muitos dos detentores destes títulos que estão a perder bastante dinheiro podem ver neste aumento de liquidez a oportunidade para se desfazerem das suas posições, forçando a queda destas unidades. Caso isso aconteça, a Associação Mutualista terá que registar essa desvalorização e pode ter que tomar medidas, criando aqui um efeito bola de neve.

Espero estar enganado, mas temo que esta medida aberrante seja mais do que uma excentricidade de quem gere os destinos da bolsa portuguesa. Temo que o impacto seja exactamente o oposto do que os responsáveis desejavam e que o aumento de liquidez possa propiciar uma fuga de quem está arrependido de ter subscrito essas unidades de participação. Mas talvez seja eu que esteja a ser fatalista e a pensar no pior cenário possível. Talvez seja eu que esteja a pensar demais. Ou outros que estão a pensar de menos.

P.S. - Obrigado a todos os mails de preocupação que os leitores me enviaram quando ouviram as minhas declarações às televisões nacionais sobre o atentado em Ankara. Estava lá como treinador da selecção nacional de andebol feminino mas, felizmente, tudo não passou de um susto para nós. Um daqueles que nos fazem repensar na felicidade que temos de viver neste autêntico paraíso de tranquilidade à beira-mar plantado. Obrigado a todos pela simpatia e preocupação.

Comente aqui o artigo de Ulisses Pereira

Nem Ulisses Pereira, nem os seus clientes, nem a DIF Brokers detêm posição sobre os activos analisados. Deve ser consultado o disclaimer integral aqui


Analista Dif Brokers
ulisses.pereira@difbroker.com

pub

Marketing Automation certified by E-GOI