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Ulisses Pereira ulissespereira@hotmail.com 11 de Julho de 2011 às 12:11

A revolta de um Portugal em histeria

De repente, todos se tornaram especialistas em agências de "rating". Qualquer português que se preze tem o seu "rating" a atribuir às agências de "rating" e a esmagadora maioria atribui a essas mesmas agências a classificação de "hiper-mega lixo, com efeitos radioactivos".

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Estou à vontade para falar sobre agências de “rating”, “price targets” e outros nomes deste género. Há vários anos que escrevo artigos muito críticos sobre os “price targets” que as casas de investimento lançam e aos quais eu chamo de horóscopo da Bolsa: Não acredito neles, mas leio-os sempre. E as agências de “rating”, andaram sempre a reboque dos acontecimentos e agora querem mostrar que estão um passo à frente.

Não vou, por isso, defender as agências de “rating” pois seria incoerente com o que tenho escrito ao longo dos anos. Mas este histerismo em torno das agências de “rating” causa-me imensa confusão. Porque, uma vez mais, conseguimos arranjar um bode expiatório para os nossos problemas. Primeiro era a crise internacional, depois os especuladores e agora são as Moodys, S&P`s e uma série de nomes americanos que dominam os “ratings” mundiais. Nomes que se tornaram tão familiares como qualquer protagonista das telenovelas portuguesas.

O que eu acho mais curioso é a forma como todos se demarcam uns dos outros. “Portugal não é a Grécia”, dizemos nós. “Espanha não é Portugal”, diz o ministro espanhol. Recordam-se quando dizíamos isto e afirmávamos que jamais se colocava o cenário de uma intervenção do FMI em Portugal? Só não se lembra quem tem memória curta porque eram as declarações mais ouvidas em Portugal há um ano atrás. Afinal aconteceu e éramos mais parecidos com os gregos do que imaginávamos. (E benzo-me logo a seguir a ter escrito tão medonha frase)

Portugal e a Europa gritam - em uníssono - que temos que temos que limitar o poder das agências de “rating” nos países europeus. Mas não seria mais importante que alguém, além de gritar bem alto, também legislasse no sentido de limitar o poder discricionário de quem governa, para não criar dívidas tão brutais que colocaram países como Portugal, de cócoras, mesmo a jeito de levar um pontapé que nos faça voar até… ao lixo?

As agências de “rating” já deram provas da sua incompetência, centrando-se muito mais no passado do que no futuro, atribuindo “ratings” altíssimos a empresas e países que caíram no abismo. Agora tentam olhar em frente, aquilo que sempre devia ser o papel delas. E o argumento principal da Moody`s para esta decisão foi que Portugal dificilmente conseguirá escapar a um novo pedido de auxílio. Mas não é isso que eu tenho lido a maior parte dos especialistas dizer? Onde está o espanto?

E os partidos de esquerda em Portugal que vêm agora acusar a Moody´s de serem o rosto do mais verme capitalismo que quer afundar Portugal, não passaram toda a campanha eleitoral a dizer que Portugal, mesmo que cumpra as medidas da troika, não conseguirá evitar fugir a mais uma reestruturação da dívida? A coerência é, de facto, em política, uma virtude ao alcance de muito poucos.

Quem escreveu artigos a dizer cobras e lagartos das agências de rating, recebeu uma salva de palmas, ovações e só não foram atirados ao ar em êxtase porque a distância ainda dificulta certas manifestações. Preferi escolher outro caminho. Sem coroa de glória e com algumas vaias à mistura. Já lá vão uns anos que escrevi o que acho da qualidade de certas análises. Agora é tempo de perceber como podemos deixar de estar ao alcance dos tais “murros no estômago” de que falou Pedro Passos Coelho.

Estou mais preocupado connosco do que com os outros. Porque tenho a profunda convicção que, se conseguirmos cumprir as medidas planeadas, inverteremos o rumo, por mais murros no estômago que levemos. Só peço que o Estado não tenha a barriga cheia e que não percamos tanto tempo atrás dos moinhos de vento. Sancho Pança e Dom Quixote já passaram à história.

Cabe-nos a todos nós mostrar à Moody`s que está errada e que Portugal vai dar a volta. Se não conseguirmos, espero que todos que se revoltaram contra essa senhora, lhe façam uma vénia. Com lágrimas nos olhos e os bolsos mais vazios.

Mãos à obra, Portugal!

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