Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 14 de outubro de 2019 às 10:07

Catarina Martins a fazer o funeral da bolsa portuguesa

Apesar das zangas pré-eleitorais, António Costa parece precisar de Catarina Martins para esta segunda legislatura. Sem acordos escritos, sem casamentos ou uniões de facto, mas o Bloco parece destinado a ter um papel-chave no apoio à governação socialista.

(comente aqui o artigo de Ulisses Pereira)

Durante a campanha eleitoral, Catarina Martins acenou a bandeira da nacionalização de várias empresas, sobretudo a mais emblemática - os CTT. Não me choca esse discurso em função da ideologia que norteia a ação do Bloco de Esquerda em que a intervenção do Estado e a sua esfera preenchem grande parte do sistema económico. Por isso, diria que até é coerente com os princípios do Bloco. Aquilo que me chocou foi o facto de Catarina Martins afirmar que com 100 milhões seria possível voltar a pôr os CTT nas mãos do Estado.

Catarina Martins pode perceber muito de campanhas eleitorais e da forma de conseguir o apoio de muitos portugueses, mas de regras de economia de mercado conhece pouco. Ou conhece (porque é bem inteligente) e finge que não. Se a atual capitalização bolsista dos CTT supera os 300 milhões, como é que o Estado pode recuperar o controlo da empresa com apenas 100 milhões?

Quem quer vender as suas ações a um preço inferior a que estão cotadas no mercado? Ninguém. E se considerarmos o preço médio dos últimos seis meses (aqueles cuja cotação é a mais baixa desde que entrou em bolsa), o resultado não é melhor. Mas, para Catarina, 100 milhões chegam para o Estado reaver o controlo dos CTT. Um dia há de explicar como chegou a esse número, mas em campanha é tão fácil atirar números para o ar como foguetes num qualquer casamento (leia-se matrimónio entre duas pessoas e não entre dois partidos).

O truque que, provavelmente, terá na manga é a invocação do interesse público nacional para proceder a essa nacionalização. A degradação dos serviços justifica isso? Não. No limite, pode justificar a não renovação do contrato em 2020. E o que dizem aos milhares de pequenos acionistas que compraram na privatização dos CTT? Espero que, ao menos, um "Obrigado" por eles terem enchido os cofres do Estado há uns anos e agora perderem quase tudo.

Catarina Martins tem razão quando se diz que privatizaram empresas públicas lucrativas. Foi uma decisão de quem governava na altura e necessitava de dinheiro a qualquer custo, numa altura em que estávamos sob um resgate. Pode discordar dela. O que tem de perceber é que não basta apagar com uma borracha. O Estado arrecadou 900 milhões de euros com a privatização e agora Catarina Martins quer pagar 100 para reverter o processo. Golpe de génio, digno de Nicolás Maduro.

Muitos não percebem porque a nossa bolsa tem tido um desempenho tão mau e esquecem-se de olhar para isto. Quando um dos principais suportes do Governo anterior tem esta postura em relação ao mercado de capitais, quem se sente à vontade para investir na bolsa portuguesa? Se os CTT forem nacionalizados, ao bom estilo venezuelano, a bolsa portuguesa vai a caminho do cemitério. Vamos ver se António Costa lhe dá a extrema-unção.


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