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Este mercado não é para heróis

A semana passada foi um autêntico banho de sangue no mercado português. Quedas fortes na maioria das acções para desespero de todos aqueles accionistas que achavam que era impossível cair mais.

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A semana passada foi um autêntico banho de sangue no mercado português. Quedas fortes na maioria das acções para desespero de todos aqueles accionistas que achavam que era impossível cair mais. Mas, uma vez mais, o barato saiu caro.

Podemos apontar a culpa à Grécia, ao senhor Hollande, à austeridade imposta pela troika mas a verdade é que o que está a acontecer é apenas a continuação daquilo que vem marcando os últimos anos na bolsa portuguesa e só é apanhado de surpresa quem acha que as tendências devem ser contrariadas.

Em conversa com um dos meus clientes, na passada semana, ele questionava-me se não seria uma boa altura de entrar no mercado português. Além de cliente, é uma das pessoas mais inteligentes que conheço e observador atento do mercado accionista nacional, pelo que prestei especial atenção aos seus argumentos.

Uma das razões que apontava para que pudesse ser uma boa oportunidade de entrada em acções portuguesas era o facto dos títulos da dívida pública portuguesa estarem a voltar para taxas de juro mais baixas (felizmente para o nosso país), deixando de ser uma enorme concorrência ao mercado accionista como vinham sendo. Concordo com ele neste ponto, embora não lhe dê muito ênfase porque ao nível das obrigações das empresas, essa baixa das taxas de juro não é ainda visível e a queda das taxas das yields das obrigações portuguesas ainda está longe dos valores ditos "normais".

Outro dos argumentos por ele utilizado era o facto de muitas acções portuguesas terem um PER inferior a 10 e apontar para a manutenção do desempenho nos próximos anos. Não cabe aqui estar a explicar detalhadamente o significado daquele indicador de análise fundamental (nem o mesmo deve ser analisado isoladamente) mas a verdade é que a grande questão é a capacidade das empresas portuguesas conseguirem manter o desempenho nos próximos anos.
Será que tal vai suceder? Ou será que a conjuntura irá ainda agravar-se mais e os resultados vão sofrer com isso? São estas dúvidas que afastam os compradores fortes (leia-se "estrangeiros") do nosso mercado.

O pessimismo reinante e quase consensual é outra das razões por ele invocada. Acredito, no entanto, que ainda não atingimos um extremo tão consensual que possa ser um indicador fiável para uma entrada embora a violência das quedas da semana passada tenha dado mais um passo em frente nesse sentido.

Finalmente, ele considera que várias acções portuguesas estão sobre suportes importantes. Concordo uma vez mais mas (e há sempre um "mas" que me fazem acabar por manter o meu pessimismo) os suportes são uma excelente referência nos "Bull Markets" para reforçar as posições. Em "Bear Markets", os suportes são sempre frágeis e é na quebra das resistências que devemos centrar as nossas atenções pois, caso sejam quebradas, podem indiciar sinais de inversão de tendência. Curiosamente, no dia de escrita deste artigo foram várias as acções que quebraram esses suportes…

Apesar de ser sensível aos argumentos, continuo a achar prematuro tentar aproveitar potenciais saldos no mercado português e não sou candidato a encontrar o fundo do mercado português. Porque alguns destes mesmos argumentos podiam ter sido apresentados há alguns meses atrás e nada nos diz que eles não podem ser ainda mais evidentes daqui a alguns meses ou anos.

Prefiro esperar por sinais do mercado, por mais aborrecido que isso possa ser e por menos estimulante intelectualmente que seja. O primeiro sinal de força seria o recuperar a zona dos 5.300 pontos do PSI-20, último bastião dos touros que foi quebrado e que é agora a primeira resistência de curto prazo. O segundo seria a ruptura, em alta, da resistência dos 5.700 pontos que considero ser a grande fronteira em termos de médio prazo. Até que isso aconteça, podem milhares de investidores e analistas proclamar "Desta vez é que é!", mas isso continuará a ser mais um exercício de crença do que de qualquer raciocínio lógico.

A bolsa portuguesa está em mínimos dos últimos 14 anos mas isso não é motivo para irmos aos saldos. Bem pelo contrário. A tendência continua a ser a principal aliada dos investidores mas parece fazer parte da natureza humana a arte de a contrariar. E isso sai muito caro aos investidores. Este mercado não é para heróis.






Nem Ulisses Pereira, nem os seus clientes, nem a DIF Brokers detêm posição sobre os activos analisados. Deve ser consultado o disclaimer integral aqui
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