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Nuno Amado lutando contra o tempo

A semana passada foi marcada pela apresentação dos resultados do Millennium BCP. Muitos investidores esperavam uma semana de movimentos muito acentuados na cotação do Banco mas tal não aconteceu.

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A semana passada foi marcada pela apresentação dos resultados do Millennium BCP. Muitos investidores esperavam uma semana de movimentos muito acentuados na cotação do Banco mas tal não aconteceu. Os resultados saíram em linha com o que era previsto, com prejuízos muito fortes, pelo que a cotação parecia já ter incorporada essa expectativa.

Estes resultados apresentados fazem-me acentuar a ideia que há mais de um ano venho defendendo sobre a grande probabilidade de uma nacionalização do BCP. Recordo-me da primeira vez que o escrevi num artigo e das reacções violentas que se seguiram. Parecia um enviado do demo para dar uma notícia demasiado maléfica e, aos olhos da maioria, improvável. A verdade é que, à medida que o tempo vai passando, mais acredito neste cenário.
Sublinho que não estou a falar da falência do BCP. Felizmente, o Banco hoje tem rácios que lhe dão algum conforto. Falo sim de nacionalização da maior parte do seu capital pois, cada vez mais, considero altamente improvável que o BCP consiga gerar lucros suficientes que lhe permita pagar ao Estado os 3 mil milhões de obrigações de conversão contingente (Coco's). Recordo que o BCP deve pagar 500 milhões ao Estado em 2014, 1000 milhões em 2015 e 1500 milhões em 2016, sem esquecer que o BCP tem que pagar taxas de juro dos Coco's nunca inferiores a 8,5% ao ano (na realidade, devido a poderem descontar o valor pago nas suas obrigações fiscais, a taxa real andará perto dos 6,4%). Se o Banco não conseguir reembolsar o Estado, ele converterá esses Coco's em acções e irá tornar-se no maior accionista do BCP.

Não deixa de ser curioso que os partidos da extrema-esquerda protestem contra o facto da Banca se conseguir financiar junto do BCE a taxas muito baixas em comparação com as taxas que a "troika" cobra a Portugal mas, neste caso, nada dizem sobre estas taxas altíssimas que o Estado impõe nesta operação de recapitalização via Coco's.

Mas já me estou a desviar do tema central desta crónica. Seria fácil criticar Nuno Amado por apresentar os piores resultados da história do BCP. E seria injusto também. A decisão de colocar a nu, nesta apresentação de relatórios, todas as imparidades do Banco, limpando a grande maioria do "lixo tóxico", parece-me corajosa e sensata. Mas, nesta altura, não basta só lucidez e boa gestão no BCP. Administração e accionistas têm que esperar que a economia europeia dê, rapidamente, uma reviravolta de forma a poderem gerar lucros que permita ao Banco pagar os Coco's. Sem isso, por mais brilhante que seja a gestão, o BCP estará nas mãos do Estado.

Nos últimos meses, tenho deixado análises positivas sobre BPI e BES uma vez que, tecnicamente, deram importantes sinais de força. No caso do BCP, tal ainda não sucedeu. O primeiro sinal de força de curto prazo seria a ruptura da resistência na zona dos 0,08 euros. Mas, em termos de médio prazo, a acção só produzirá um claro sinal de força e de domínio dos touros quando quebrar a zona de resistência situada nos 0,098 euros. Até que isso aconteça, há que respeitar a força dos ursos.

Quando me dizem que comprar acções do BCP é uma boa opção porque a acção está quase a zero pergunto se diriam o mesmo caso houvesse 100 vezes menos acções no mercado e cada uma delas cotasse a 7 euros. Aceito vários argumentos para se estar optimista no BCP. Menos essa falácia de que está próximo do zero. Além de ser uma ilusão, tem sido ele o principal responsável por milhares de investidores a perderem muito dinheiro na acção nos últimos 2 anos.

Como venho defendendo há quase um ano, acredito que cada um de nós será o futuro dono do Millennium BCP. Ficarei extremamente contente se tal não se vier a verificar. Mas, se tal acontecer, não deveremos assacar a responsabilidade a Nuno Amado e à sua equipa que têm feito tudo o que é possível para salvar o Banco de tal cenário, mesmo recorrendo aos Coco's que podem funcionar como uma arma de destruição massiva mas que eram a única alternativa viável.

Queria esclarecer que o facto de eu acreditar ser muito provável que o BCP acabe nacionalizado, não deve ser confundido com o facto do Banco poder falir. Face aos rácios actuais do BCP, esse cenário para mim está completamente afastado. E se for nacionalizado, naturalmente que os accionistas privados continuarão a deter uma pequena percentagem do Banco que continuará a ter o seu valor. Mas, caso suceda, será um dia triste. E duvido que esteja melhor entregue nas mãos do Estado do que de um qualquer privado. O Estado já provou que é especialista em não gerir bem.

Espero não ter razão. Espero que Nuno Amado consiga dar a volta à situação. Mas quando se tem que pagar 5 ou 6 vezes mais do que aquilo que o Banco vale, a tarefa deixa de ser digna de Hércules e quase só ao nível do Mcgyver. Esperemos que, no último segundo, alguém consiga dar o "happy end" que todos desejamos.

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Analista Dif Brokers
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