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Ulisses Pereira ulissespereira@hotmail.com 23 de Março de 2020 às 10:44

O “crash” mais ordenado da História

Aquilo a que estamos a assistir é um “crash”. A dimensão da queda em tão pouco tempo assenta claramente na definição.

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"Não respira.
Pode respirar.
Não respira."
Sérgio Godinho

Os nossos dias não são os mesmos. A cada momento, uma nova notícia negra faz-nos suster a respiração, depois um regresso à calma, antes de conhecermos mais um drama humano, num mundo em que um minúsculo vírus consegue causar sofrimento a um mundo inteiro e que nos faz sentir tão pequeninos.

Nas Bolsas, o cenário não é diferente. Caem violentamente, depois respiram um pouco subindo quase que por alívio, antes de afundarem de novo. E aquela canção do Sérgio Godinho reflecte o dia-a-dia dos investidores nos mercados. Uma tensão constante, quedas que ficarão na História, seguidas de subidas para respirar e novo afundar dos mercados sem fundo, com os investidores sem sequer conseguirem respirar.

Não tenhamos medo de escolher palavras fortes, mesmo sabendo que elas devem apenas ser usadas em momentos raros. Tal qual este é. Aquilo a que estamos a assistir é um "crash". É verdade que as quedas não ocorrem apenas num dia, mas a dimensão desta queda em tão pouco tempo assenta claramente na definição. Tenho apelidado ao que temos vivido nas últimas semanas nos mercados de "o mais ordenado dos crash", sem grandes "spreads" na negociação, sem os sistemas falharem.

Comecei a apaixonar-me pela Bolsa em 1987, depois do "crash". Tinha, na altura, 13 anos e as notícias sobre o tema atraíram as minhas atenções e, desde aí, não mais parei de acompanhar os mercados. Vivi "Bull Markets" loucos, a implosão das "dotcom" a seguir a 2000, a crise do "subprime" a partir de 2007. Vi muitos mercados implodirem. Mas a velocidade com que o mercado está agora a cair compara-o aos "crashes" que ficaram na História.

O PSI-20 está hoje a níveis de 1994! Precisamos de andar 26 anos para trás, para descobrir a última vez que a Bolsa portuguesa esteve a estes níveis, o que mostra bem o grau de destruição que este maldito vírus está a ter no mercado. Não há sobreviventes. Todas as acções são despejadas sem dó nem piedade.

Será isto pânico ou uma decisão racional? Não sabemos. Dependerá de como a pandemia evoluir e como as economias vão reagir a isso. Leio muitos a dizer que o mercado está a reagir apenas pelo pânico, quando algumas empresas não deviam sofrer com isto. Acho que essas pessoas não estão a ter noção do impacto que tudo isto terá na economia. Quando o Governo francês decide injectar 345 mil milhões de euros e o espanhol 200 mil milhões, isso diz muito do que está em jogo. 20% do PIB irá ser utilizado para tentar salvar a economia.

Haverá algum pânico também? Concerteza que há. Como sempre refiro, são o medo e a ganância que movem os mercados e neste caso o medo de perder dinheiro é exponenciado pelo medo físico. Mas esta crise irá ter uma brutal consequência económica e os mercados estão a descontar isso.

Quando é que vamos bater no fundo? Esta é a pergunta que todos gostariam de ver respondida. Continuo a defender que, tal como nas últimas semanas, que quem tenta adivinhar os fundos é esmagado pelo mercado e é o que tem acontecido recentemente. Mas acho interessante debater o momento em que podemos ver um fundo de curto prazo.

Como sempre, será a Bolsa americana a ditar leis e influenciar as Bolsas europeias. Nestas situações, será normalmente no auge do medo que os mercados atingem o fundo. Por isso, acredito que esse fundo ocorrerá quando o medo estiver nos níveis máximos nos Estados Unidos e isso deverá ocorrer quando a maioria dos seus Estados estiverem parados e (quase) todos estiverem em casa, conforme acho que infelizmente irá acontecer na esmagadora países do mundo, pois é a única forma possível de travar o vírus. Parece, por isso, para breve um fundo de curto prazo.

Isso quer dizer que teremos aí um fundo de longo prazo? Não faço ideia, porque não consigo mesmo saber se o mercado terá descontado correctamente o impacto brutal que tudo isto vai trazer à economia. Se tudo isto passasse em dois ou três meses, estaria certo que a economia rapidamente recuperaria com o gigantesco apoio que irá ter da parte dos governos, numa espécie de Plano Marshall. Mas será que tudo passará assim tão rápido?

Tomemos o exemplo português. António Costa prevê o pico da epidemia em meados de Abril e o seu controlo um mês depois. Parecem-me previsões realistas. Mas mesmo quando o vírus estiver sob controlo, continuará a haver alguns casos. Quanto tempo demorará até retomarmos a nossa vida normal? Obviamente que aí voltaremos ao trabalho, mas quanto tempo esperaremos até que os nossos comportamentos retomem ao passado? Além dos desempregados (prever uma duplicação dos desempregados parece catastrófico mas não irreal), que ritmo de consumo iremos ter, sabendo que todos temem a segunda vaga do vírus?

A incapacidade de responder a estas questões assusta os mercados e torna imprevisível descobrir o fundo de longo prazo. No curto prazo, já descrevi qual o cenário que acredito poder conduzir a esse fundo, mas tenho muito mais dificuldade em perceber o que acontecerá depois. O mercado não gosta de notícias, muito menos de notícias terríveis como estas. Mas os investidores gostam ainda menos de incerteza e não me lembro, em três décadas a acompanhar o mercado, de um momento mais incerto do que o actual.

Nas últimas três semanas, tenho aconselhado, a quem ainda não tinha vendido, a vender nos ressaltos. Hoje, não coloco aí a tónica, mas continuo a achar que o risco continua a ser muito elevado. Negociar no mercado nesta altura é quase como jogar a roleta russa.

Artigo escrito em 20/03/20 às 12h40
Fontes: https://live.euronext.com/pt/

Ulisses Pereira não detém qualquer dos ativos analisados. Deve ser consultado o disclaimer integral aqui,onde também pode ser consultada a lista com as anteriores análises de Ulisses Pereira.

Artigo em conformidade com o antigo Acordo Ortográfico
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