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O momento da bolsa portuguesa

Quando, há cerca de um mês atrás, escrevi o meu último artigo, confessei a minha atitude neutral face à bolsa portuguesa, referindo que voltaria a vestir o meu fato de touro caso o PSI-20 voltasse a ultrapassar os 5.700 pontos. Rapidamente, o principal índice português ultrapassou essa fasquia e, disciplinadamente, alterei a minha posição de neutral para optimista.

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Se costumo usar a imagem do fato de urso e de touro, quase posso dizer que, desta vez, vesti apenas metade do fato de touro. É verdade que os sinais continuam a ser encorajadores mas, tecnicamente, o grande sinal de força será dado se o PSI-20 quebrar, em alta, a zona de resistência situada entre os 6350 e os 6.400 pontos, zona que travou a bolsa portuguesa em Janeiro e Maio deste ano. Nessa altura sim, vestirei o fato inteiro, o gorro, as ceroulas e tudo o que tenho direito.

 

Não deixa de ser curioso que, um ano após o mercado ter começado a subir, a Economia portuguesa começou a dar sinais de vida. Subida do PIB no segundo trimestre, recorde de exportações ou a subida da confiança dos consumidores portugueses são apenas alguns dos exemplos. Nada de surpreendente pois o passado mostrou-nos que os mercados antecipam as recuperações económicas. Tem sido esse, aliás, o meu principal argumento para estar optimista quanto ao futuro da nossa economia. Como sempre, acredito muito mais nos sinais de que o mercado nos dá do que nas 1.001 análises de economistas, Bancos centrais e videntes.

 

Outro dos aspectos que me fazem ter apenas metade do fato de touro vestido tem a ver com as taxas de juro implícitas, no mercado secundário, das obrigações do tesouro a 10 anos. Apesar de terem caído depois daquela subida vertiginosa na altura da crise política (quando Portas saiu, regressou, Cavaco voltou a colocá-lo de lado e, no fim, teve de o aceitar com mais poder que nunca), os juros a 10 anos não têm conseguido quebrar o importante suporte entre os 6,3 e os 6,4%.

 

Continuo a considerar crucial para a evolução da economia portuguesa a baixa dessa taxa de juro implícita para um regresso em pleno de Portugal aos mercados e para alguma folga negocial numa possível renegociação de um segundo memorando com a Troika. E, para isso, era muito importante uma quebra desse suporte.

 

O agravamento da tensão em relação à Síria tem penalizado os mercados nas últimas duas semanas. Mais do que as guerras, o período que antecede as intervenções militares é o que mais penaliza os mercados, pela incerteza que em si encerra e pelo medo que se apossa dos investidores. É, durante esse período, que os mercados vão descontando o efeito negativo que esse conflito bélico vem a ter e, na maior parte das vezes, depois da intervenção militar se iniciar os mercados recuperam pois já descontaram esse cenário.

 

Estando eu longe - bem longe - de ser um especialista em questões militares, o pior cenário para os mercados é o continuar da tensão e de uma iminente intervenção na Síria. Na minha opinião, o mercado reagiria mais favoravelmente a um ataque à Síria, do que ao continuar destas ameaças e deste "quase, quase, quase a intervir". Naturalmente, que um acalmar da tensão seria ouro sobre azul, mas isso parece-me óbvio e, infelizmente, um dos cenários mais improváveis.

 

Em todas as análises, faço questão de referir o que é que me fará mudar de opinião. Neste caso, aquilo que me faz despir a metade de fato de touro que tenho vestido é a quebra, novamente, da zona de suporte entre os 5.550 e os 5.700 pontos. Mas nem isso me fará retirar o fato de urso que tenho guardado no armário há mais de um ano e que começa a cheirar a mofo. Para que tal aconteça, é necessário que o PSI-20 quebre a decisiva zona de suporte entre os 5.100 e os 5.200 pontos. Esse seria o cenário em que o gráfico da bolsa portuguesa tinha "Bear Market" escrito na testa.

 

É verdade que hoje é mais cómodo para mim estar optimista do que quando o fiz pela primeira vez nos últimos anos em Junho do ano passado. Mas ninguém deve estar excessivamente confiante nas suas análises. O mercado é um bicho traiçoeiro que nos apunhala pelas costas quando não lhe damos a devida atenção e crédito. Por isso, estarei atento aos suportes que referi no parágrafo anterior e não hesitarei em despir as vestes optimistas de touro caso eles sejam quebrados. Mas confesso que sonho com a ruptura dos 6.400 pontos. Não seriam apenas boas notícias para os investidores. Seria um grande sinal para a economia portuguesa. Mais um.


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Analista Dif Brokers
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