Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 15 de abril de 2019 às 10:17

Respirar antes de negociar

A facilidade e a velocidade das ordens faz com que, nos dias de hoje, se negoceie muito mais do que se devia.
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Quando entrei para a Faculdade de Economia do Porto nos primeiros anos da década de 90, já era um apaixonado pelos mercados. Na altura, a Internet não estava acessível para quase ninguém em Portugal e eu apenas conseguia saber as cotações durante a sessão ouvindo 2 vezes por dia o "Jornal Financeiro" da TSF ou ligando para o Banco e perguntando.

Nos meus primeiros dias na Faculdade, perto da biblioteca, via sempre um grupo de alunos em volta de um computador. Estava curioso para saber o que seria mas tive receio que o caloiro não fosse bem-vindo por ali. Até que um dia perdi o medo e a vergonha, aproximei-me e vi que era um terminal da Reuters com notícias e cotações em tempo real.

Para mim, tinha sido como descobrir a roda. Poder acompanhar os mercados quando quisesse era um verdadeiro privilégio e sonho. Passei a ir até ao terminal em todos os intervalos das aulas e, com o decorrer do tempo, comecei a ir até às aulas nos intervalos das sessões, o que obviamente me impediu de concluir o curso nos 5 anos que ele devia durar.

Apesar desse avanço notável, as ordens continuavam a ser dadas por telefone. Ligava para a corretora, falava com o corretor e depois dava a ordem. Nos dias de hoje, todos sabem como as coisas funcionam. Todos acompanham as cotações e notícias em tempo real e as ordens são dadas com um mero click no nosso próprio computador ou telemóvel. É tudo fácil. Muito fácil. Eu acrescentaria que é demasiado fácil.

O progresso tecnológico e a facilidade com que hoje em dia podemos colocar uma ordem de Bolsa é algo que, naturalmente, saúdo e me deixa contente. Mas isso não trouxe apenas coisas boas, como a velocidade e a facilidade de execução. A quase instantaneidade das ordens faz com que, nos dias de hoje, a maior parte dos investidores negoceie muito mais do que devia. Dar ordens é tão fácil que a tentação de carregar naquele botão é grande e, muitas vezes, irresistível.

No passado, o simples facto de termos que ligar e falar com alguém fazia com que nos questionássemos mais sobre aquela ordem. "Será que ele vai achar disparatado?", pensei eu algumas vezes. E a simples pergunta de confirmação do lado de lá nos fazia pensar. Uma última reflexão.

Não, não quero voltar aos anos 90. A evolução tecnológica é fantástica mas não podemos cair na ratoeira que por vezes ela em si encerra. Antes de dar uma ordem conte até 20. Ou 200. Ou 500. Esses segundos a mais de reflexão vão impedi-lo de cometer alguns erros.

Pense. Respire. Agora sim, é hora de negociar.


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