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Vendermos o ouro é pecado?

A queda violentíssima do ouro nas últimas semanas veio reacender o debate sobre o futuro desta matéria-prima.

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A queda violentíssima do ouro nas últimas semanas veio reacender o debate sobre o futuro desta matéria-prima. Usei o verbo "reacender" porque, nos últimos anos, havia um consenso quase assustador sobre a subida do preço do ouro. Esse consenso aliado à autêntica euforia que o ouro tem gerado (não falo apenas dos mercados mas, por exemplo, do florescer de lojas que compram ouro em cada esquina do nosso país) eram alguns sinais de alerta que poderíamos estar próximos de um topo do "Bull Market".


Desde 2001, o ouro viveu um fabuloso "Bull Market", com valorizações superiores a 600%! Como é habitual, nos primeiros anos deste ciclo de subidas, poucos eram os artigos dedicados a esta matéria-prima e a esmagadora maioria dos investidores ignorava este fantástico desempenho. Só a partir de 2007/2008 é que a valorização do ouro começou a atrair a generalidade dos investidores e os argumentos para as subidas assentavam no facto de a fraqueza da Zona Euro e a injecção de liquidez nos Estados Unidos levarem a que o ouro viesse a ser um local de refúgio na fuga dos investidores do Euro e do Dólar.


Curiosamente, nos últimos 2 anos, com o agravar da crise da dívida na Zona Euro, o ouro parou de subir. No momento de maior aflição em torno do Euro (sobretudo a segunda metade de 2011), o ouro não subiu, para surpresa daqueles que achavam que seria aí o grande momento da matéria-prima. A verdade é que, como sempre, o mercado tinha antecipado os acontecimentos e a cotação do ouro já incorporava esse cenário.


O ano de 2013 tem sido negativo para o ouro, mas sobretudo as últimas 2 semanas têm sido verdadeiramente devastadoras com quedas abruptas. A possibilidade de Chipre vender as suas reservas de ouro e a diminuição do ritmo de crescimento da economia chinesa são duas explicações utilizadas para explicar este movimento mas, como sempre, prefiro centrar-me muito mais no que os gráficos dizem do que nas explicações que, à posteriori, são sempre mais fáceis de encontrar.


Tecnicamente, o ouro quebrou o importante suporte situado entre os 1520 e os 1560 pontos que era aquela que eu considerava a fronteira entre o "Bull" e o "Bear Market". Depois de 2 anos de uma lateralização e em que as notícias até eram altamente favoráveis aos touros do ouro, o metal precioso quebrou agora um importante suporte e a reacção foi violenta. Dada a dimensão e velocidade das quedas, não me surpreenderia ver um ressalto nas próximas semanas. O cenário mais de acordo com os cânones da análise técnica seria um ressalto até à zona do suporte quebrado (nova resistência) naquilo que seria um clássico reteste, antes do regresso às quedas. Mas nem sempre os mercados são tão lineares assim.


O que sei é que mudei a minha atitude em relação ao ouro e tornei-me pessimista e enquanto não voltar a quebrar, consistentemente, a zona de resistência entre os 1520 e os 1560 euros, terei o fato de urso vestido em termos de médio e longo prazo, mesmo considerando a possibilidade de um ressalto nas próximas semanas. E o facto de ver imensos analistas e público em geral a defender que isto é apenas uma mera correcção e que nos próximos anos o alvo do ouro são os 3000 dólares, reforça o meu pessimismo já que é normal, no final dos "Bull Markets" o sentimento ainda ser claramente optimista.


Estima-se que o Banco de Portugal possua, nas suas reservas, entre 350 e 400 toneladas de ouro algo que, aos preços actuais pode valer entre 12 a 13 mil milhões de euros mas que, há alguns meses atrás valeria entre 16 a 18 mil milhões de euros.


Porque não se vende o ouro? Há 3 argumentos de quem está contra este processo. Por um lado, há um acordo entre o BCE e vários Bancos centrais nacionais (no qual se inclui o Banco de Portugal), designado por Declaração Conjunta Sobre o Ouro, que limita a venda de ouro por cada um destes Bancos por ano. Por outro lado, o Banco de Portugal é independente do Governo pelo que essa decisão nunca poderia ser de Vítor Gaspar. Finalmente, os que se opõem à venda do ouro, dizem que seria mais uma acção que delapidaria o património português.


Apesar destes 3 importantes argumentos, sou claramente defensor da venda do ouro que detemos, mesmo sabendo que teríamos de o fazer a preços um pouco inferiores ao mercado, devido à dimensão muito grande das nossas reservas. O acordo entre os Bancos vigora até 2014 mas, naturalmente, em situações de crise há expedientes que podem ser usados para persuadir os seus congéneres. Caso contrário, vender-se-ia o máximo permitido. Por outro lado, a independência do Banco de Portugal é um dado. Mas pode o Banco de Portugal alhear-se à grave crise em que vivemos?


É evidente que também sou sensível ao argumento de que, ao vendermos o ouro, estamos a delapidar o nosso património e que isso devia ser utilizado para situações de emergência. Mas se o que vivemos não é uma situação de emergência o que será? E se não vendermos o ouro numa circunstância tão aflitiva como esta, quando o faremos? Nunca.


A situação de grave crise financeira e o meu sentimento negativo em relação ao futuro de médio e longo prazo do ouro, faz-me achar que este é o melhor momento para o fazer. E, para os mais distraídos, recordo que há 10 anos atrás o ouro valia cerca de 6 vezes menos do que valia agora…


Duvido que se venda o ouro. E Portugal fará o papel daquele indivíduo que passa fome, não tem dinheiro para comprar roupas, mas guarda um carro de topo na sua garagem que nunca de lá sai porque não tem gasolina para o abastecer. E o problema é que o carro pode valer muito menos daqui a uns anos. Um país pobre que gosta de passar por rico.

 

 

P.S.: O facto de sermos o 14.º país do mundo com mais reservas de ouro ajuda-nos imenso. Pode ser é que um dia alguém nos explique como…

 

 

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Analista Dif Brokers
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