Clara Raposo
Clara Raposo 22 de outubro de 2019 às 20:15

A digitalização ao serviço do investidor (e vice-versa)

Vivemos este processo de digitalização na primeira pessoa - processamos informação de todos os tipos apenas com o nosso olhar e com os nossos dedos, os mesmos dedos que encerram em si aquilo que cada um tem de único, a sua impressão digital.

É a palavra da moda, a marca principal da mudança profunda de hábitos que estamos a viver nos primeiros 20 anos do primeiro século do 3.º milénio. Vivemos este processo de digitalização na primeira pessoa (do singular e do plural, eu e nós) - processamos informação de todos os tipos apenas com o nosso olhar e com os nossos dedos, os mesmos dedos que encerram em si aquilo que cada um tem de único, a sua impressão digital. E comunicamos uns com os outros essencialmente também por via digital. Claro que, para além do olhar e das mãos no ecrã e no teclado, os nossos cérebros também intervêm, na interseção entre aquilo que é a inteligência natural que trazemos instalada de origem e algumas formas de inteligência artificial.

 

Também a forma de investirmos e aquilo em que investimos têm sofrido mudanças apreciáveis, pelo que é absolutamente essencial compreender-se a relação entre a digitalização e os investidores. Tenho dúvidas quanto a esta relação. Se é verdade que podemos ter a digitalização ao serviço do investidor, o contrário também é possível, termos os investidores algo reféns da digitalização. Porque ela é inevitável, está aí, evolui rapidamente, não pede licença para experimentar. E é frequente que até reguladores e supervisores do setor financeiro sejam surpreendidos com este ritmo de criação de novidade. Assim tem sido com o aparecimento de moedas virtuais e de diferentes formatos de fintechs, para mencionar apenas os casos mais óbvios.

 

Creio que todos conseguimos facilmente ver as vantagens da digitalização para o investidor - essencialmente nos aspetos práticos (com maior rapidez e menores custos para execução de operações e com maior comodidade para aceder a informação). Para além destes aspetos, a digitalização também é acompanhada pelo crescimento de um setor novo que pode significar ele próprio novas oportunidades de investimento - é novo, é diferente do que existia antes. Mais ainda, para além da existência de novas empresas, produtos e serviços digitais, estes concorrem em certa medida com organizações mais "tradicionais" e implicam que todo o setor financeiro se mexa face a uma concorrência disruptiva. Neste sentido, se o setor apresentar maior eficiência, os investidores poderão beneficiar.

 

Há, porém, aspetos menos simples associados a esta época de transformação digital. Da mesma forma que muito mais informação está disponível online - big data, big tudo - também a seleção da informação e o seu processamento se torna mais difícil. A que fontes recorrer? Que escrutínio existe? Não há inteligência artificial que nos convença totalmente. E, num possível paradoxo, esta aparente democratização do acesso a informação por parte de qualquer um - e de qualquer investidor - é acompanhada de fenómenos de desinvestimento em análise de informação. Ainda no último mês fomos surpreendidos com a notícia de mais um banco em Portugal que deixa de ter uma equipa de research que analise e avalie um conjunto significativo de empresas no contexto nacional.

 

Vivemos, pois, um momento que me recorda o famoso velho artigo de Sandy Grossman na American Economic Review, "On the impossibility of Informationally Efficient Markets" (um dos meus favoritos de sempre) - questionava em 1980 se seria possível termos equilíbrio numa economia concorrencial se os preços fossem eficientes, ou seja, eliminando quaisquer lucros de arbitragem. Claro que não, concluiu: onde estariam os "arbitrageurs" se não obtivessem qualquer retorno (privado) da sua atividade que envolve custos (privados)? O equilíbrio que o modelo de Grossman sustenta implica algum grau de ineficiência dos mercados: os preços refletem a informação dos mais informados ("arbitrageurs") mas apenas parcialmente, sendo que o número de agentes informados é ele próprio endógeno ao modelo. Em suma, a existência e partilha de informação não é uma questão simples. Valha-nos o cérebro!

 

Esta reflexão leva-me de volta à relação do investidor com a digitalização. Se os benefícios de comodidade, rapidez e custo são facilmente apreendidos, também os riscos, inclusive em termos de privacidade, partilha de dados e sujeição a manipulação, estão hoje na ordem do dia. Daí a necessidade de termos um sistema no qual os investidores possam confiar e em que as regras de atuação e a sua implementação, (bem como as penalizações em caso de abuso), sejam claras e guiem os investidores. Inovação, claro, mas com organização e o devido enquadramento.

 

Parece-me particularmente relevante que, nos dias de hoje, se atenda à diversidade de perfis de investidores, cujas necessidades são muito diferentes. Exigir o mesmo a agentes/intermediários financeiros cuja atividade se dirige a investidores muito diferentes poderá não fazer sentido. O seja, o one-size-fits-all na regulação e supervisão do setor financeiro pode dificultar uma segmentação de mercado "natural" para diferentes perfis de investidores. Estes diferentes perfis de investidores têm que ver com educação e escolaridade, com grau de familiaridade com o digital, com dimensão de capital a investir, com perfil de risco, com natureza individual ou coletiva, até com as novas tendências - que também vieram para ficar - de investimento de acordo com critérios ESG (environmental, social, governance). 

 

Cada vez mais é importante atender à adequação do link entre as empresas/organizações e os seus investidores. É importante que os investidores "saibam ao que vão" quando investem na empresa X, no produto Y, no serviço Z. Mais do que códigos e regras e bons princípios, interessa que os riscos e potenciais benefícios dos diferentes investimentos sejam bem comunicados, de forma transparente. É um contrassenso imaginarmos que a atividade financeira pode (ou mesmo deve) existir com risco zero. De certa forma, já se tentou. Não dá. Interessa, pois, documentar bem e que o investidor saiba, garantidamente, ao que vai.

 

Para que este elevado grau de transparência e de entendimento exista num mercado que seja um catalisador de desenvolvimento, alocação eficiente e redistribuição justa de recursos, necessitamos de instituições sólidas e credíveis na regulação e supervisão, tanto como de instituições de ensino superior que desenvolvam a formação de novas gerações com extraordinárias competências digitais, com profundos conhecimentos de finanças e com um alinhamento completo com os objetivos de desenvolvimento sustentável da Agenda 2030 das Nações Unidas. É para isso que trabalho diariamente.  

 

PS - O Corner de hoje é um sumário da minha intervenção de 3 de outubro na conferência que a CMVM organizou no ISEG.

 

Dean do ISEG - Lisbon School of Economics & Management Universidade de Lisboa

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