Clara Raposo
Clara Raposo 27 de agosto de 2019 às 19:30

Da Amazónia aos Grammys: uma silly season sem fim à vista...

Líderes como Bolsonaro e Trump, perante a catástrofe que assola a Amazónia, parecem precisar de ser persuadidos por outros de que existe um problema sério. Como se o planeta e todos nós e os nossos descendentes (se é que isso interessa) pudéssemos viver sem respirar.

Há um ano, também no rescaldo de uma noite de prémios MTV VMA, escrevi aqui um artigo sobre o fim da silly season, em que a lisboeta Madonna teve papel central: foi o fio condutor natural de um conjunto de temas quentes do verão de 2018: (1) a ocupação do palacete do Ramalhete, espaço físico indissociável da leitura obrigatória de "Os Maias" no secundário; (2) o preço  da habitação no centro de Lisboa; (3) a mobilidade e a política de preços nos passes para acesso às grandes cidades; (4) e a importância de viver e trabalhar no mundo real, próximo de gente verdadeira, no bulício e na beleza da cidade. Passou um ano, entretanto, e volto a passear ao fim da tarde nas mesmas encantadoras ruas de Santos, de São Bento, da Lapa e da Madragoa, depois de um dia de trabalho, a tentar celebrar o fim de mais um verão e o regresso à vida normal.

 

Só que, este ano, a silly season parece que veio para ficar. Que se passa? Quando quase toda a gente vai de férias na mesma altura do ano, essa é a silly season. Porquê? Porque aquelas pessoas sérias, informadas e importantes, que se focam no seu trabalho e no seu "networking" com o grupo do costume em 11 meses do ano, abrandam naquele mês especial. E quando os mais influentes se dedicam a atividades de lazer, então os grandes temas ficam algo abandonados, sem os seus habituais motores a produzirem as grandes notícias para debate e partilha. Ficamos, nesta estação do ano, reduzidos a temas mais "light". O problema que se sente de forma pronunciada em 2019 é que temos uma parte da chamada elite que lidera o mundo a dar sinais de conseguir ser "silly" o ano inteiro. E essa é uma fonte crescente de preocupação.

 

Veja-se a cimeira do G7 que decorreu nos últimos dias em Biarritz. Líderes como Bolsonaro e Trump, perante a catástrofe que assola a Amazónia, parecem precisar de ser persuadidos por outros de que existe um problema sério. Como se o planeta e todos nós e os nossos descendentes (se é que isso interessa) pudéssemos viver sem respirar. São estes os líderes que rejeitam o Acordo de Paris e que insistem em manter-nos na atual, já antiga, solução energética que contribui para o agravamento das alterações climáticas que comprometem a sustentabilidade do nosso ecossistema, além de contribuírem para um permanente e razoavelmente aleatório clima económico e de relacionamento internacional, em que qualquer agente económico que não seja "silly" assume uma posição particularmente cautelosa. Estas pessoas que lideram o mundo não podem ser "silly" - são pessoas educadas, experientes e não acredito que vivam permanentemente em negação; devem saber o que estão a defender e porquê - mas podem fazer dos outros parvos. Certamente têm um horizonte temporal de preocupação inferior ao meu e ao de muitos outros líderes mundiais. Infelizmente não estou a ver uma fórmula mágica que altere a forma de pensar e atuar destes líderes do mundo "silly"; a esperança reside em que venham a ser substituídos por outros menos "silly". A juntar à festa do fim de verão temos o novo clássico que é o tema Brexit, mais um tema bastante "silly" pela forma como vem sendo tratado, que passou a fazer parte da imagem de marca dos britânicos, a par do chá com scones. Agora com um líder como Boris Johnson temos mais um ingrediente para não vermos fim a esta temporada de imprevisibilidade.

 

Portanto, quando queremos recordar a silly season como aquela altura do ano em que nos divertimos e descontraímos um bocadinho mais, este ano somos surpreendidos com a dificuldade em perceber quando é que voltará alguma normalidade (o que é isso?!) Eu bem me queria concentrar na economia mundial e no esforço e concertação que são necessários para se evitar uma recessão na Alemanha, etc. Para isso precisamos de lideranças dialogantes e que partilhem objetivos mobilizadores - não está fácil, mas não podemos perder a esperança ("silly me", nunca a perco!)

 

Em Portugal, 2019 também tem uma silly season prolongada - ou não fosse este um ano de eleições legislativas. Faz parte. Mas, apesar de todos os defeitos que os portugueses gostam de se apontar a si mesmos e das dificuldades que a economia e o país enfrentam, vamos mantendo alguma resiliência, persistência e um discurso genericamente bem-intencionado nos vários quadrantes. Foi por isso que vi sem surpresa o editorial do Financial Times que reconhece em Portugal uma atitude menos "silly" do que aquilo que se vê em muitos outros países, inclusive na Europa. E nem sequer retiro daí ilações políticas quanto ao partido X ou ao partido Y, não era esse o objetivo do FT. E, para concluir, numa nota mais alegre e condizente com estarmos ainda em agosto, este ano não tenho Madonna a servir de música de fundo (ela não foi aos VMA de 2019), mas temos a novidade do Grammy latino para o José Cid, ora bem, parabéns! E siga a silly season! 

 

P.S. - Para o mês que vem, vamos falar da Alemanha e de crescimento. Para animar! 

 

Dean do ISEG - Lisbon School of Economics & Management Universidade de Lisboa

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