Clara Raposo
Clara Raposo 31 de julho de 2018 às 21:07

Ensino com valor acrescentado: formação plural e multidisciplinar "mesmo"  

Debate-se hoje em dia o que pode levar um estudante universitário a ter presença assídua nas aulas, quando tem acesso fácil e quase ilimitado a informação na net. Discute-se, no fundo, qual o valor acrescentado de um professor na sua formação.

É importante que as universidades levem a cabo esta reflexão e tenham a consciência da sua responsabilidade e do seu papel na formação das novas gerações. 

 

O papel da universidade e das escolas de economia e gestão na preparação dos novos adultos é um assunto sobre o qual tenho pensado (e agido) ao longo de tantos anos de estudante e de professora; e, agora, como Dean do ISEG. No artigo de hoje partilho algumas reflexões sobre esta matéria. Faço-o na primeira pessoa, sem recurso a outras fontes que não a minha experiência, com o objetivo de estimular um diálogo com o futuro, de forma algo empreendedora.

 

Para que um estudante beneficie de um ensino com aulas formais "dadas" por professores, é essencial que essas aulas sejam vivas - ou seja, que o professor que expõe matéria e que se expõe a si mesmo seja capaz de transmitir mais do que aquilo que está escrito na bibliografia. Esta forma de acrescentar valor consegue-se quando o professor dá opinião, expõe diferentes pontos de vista, gera debate em que os estudantes participam ativamente. É uma abordagem que sempre defendi e que faz com que eu própria me sinta envolvida com o momento único que é aquela aula.

 

Um segundo fator relevante é a aposta num corpo docente heterogéneo - ou seja, se todos os professores forem "parecidos", com a mesma filosofia de vida, as mesmas ideias (por exemplo, se forem todos homens, se todos correrem, se todos tiverem a mesma orientação política), então o ensino apenas formata em vez de formar pessoas com verdadeira capacidade de pensar, decidir e respeitar opiniões diferentes. A exposição à diversidade, à experiência "fora da caixa" de cada um, estimula a geração de ideias e de oportunidades - acrescenta valor numa abordagem empreendedora. O ISEG pauta-se por esta pluralidade que promove uma aprendizagem completa e esclarecida - nesta dimensão, sempre se afirmou como uma escola moderna, à frente do seu tempo, um espaço seguro de debate e opinião. Aquilo que é cientificamente objetivo é objetivo; tudo o que é sujeito a interpretação merece ser discutido.

 

O terceiro elemento de valor acrescentado é o equilíbrio da formação em termos multidisciplinares - ou seja, uma formação de banda muito curta e especializada pode apenas permitir que se formate um técnico, em vez de formar uma pessoa. Esta é uma exigência dos nossos dias: a capacidade de adaptação e de interpretação. Assim, uma formação em economia e gestão deve permitir que os conhecimentos "core" nessas áreas sejam sólidos e atuais; mas deve, adicionalmente, assentar numa robusta base quantitativa e tecnológica e ser contextualizada em termos sociais. Um estudante que sabe que impacto pode criar interessa-se.

 

Além do desenvolvimento de competências pessoais, é importante que os novos adultos assumam o seu lugar no mundo e se interessem pelo futuro. É obrigação da universidade estar atenta aos grandes desafios societais que todos enfrentamos. É por esta pluralidade e multidisciplinaridade genuínas - que não são criadas "à pressão", como uma mera moda - que no ISEG conseguimos, hoje, dar resposta a muitas das inquietações e perguntas que os mais jovens colocam, aquilo que os move e que, verdadeiramente, os motiva: ter um propósito.

 

Para alguns, o propósito pode ser algo pessoal, uma ambição, vontade de ter sucesso profissional no sentido mais tradicional. Para outros, o propósito pode ser comunitário, abranger todo o ecossistema em que nos inserimos, um desígnio comum. Aceitamos e estimulamos estas diferenças. No ISEG, é genuína a forma aberta, sem preconceitos e plural de formar as novas gerações - e de as preparar para os grandes desafios da Agenda 2030 das Nações Unidas. Os nossos professores, alunos e "alumni" estão, há muito, atentos a estes desafios. Pelo exemplo, pelo seu impacto na economia, nas empresas e na sociedade global, contribuem para um futuro melhor.  

 

Nota: Dedico este primeiro artigo às/aos minhas/meus ex-alunas/os, que tanto me inspiram e têm ensinado.

 

Dean, ISEG Lisbon School of Economics & Management, Universidade de Lisboa

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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