Clara Raposo
Clara Raposo 31 de julho de 2019 às 08:30

Inteligência artificial: futuro incerto

Quem lê o relatório e a alteração que pede ao Facebook e à Google na prestação de contas e informação acerca dos seus algoritmos, tira duas conclusões: que as ficções de Orwell e Huxley estão a transformar-se em realidade (o “big brother” já não é ficção) .

Em véspera de férias, há que pensar em coisas diferentes. No meu caso, costumo pensar no que fazer (ou não fazer!) nas férias, no que levar para ler, no que estudar de novo no próximo ano (as minhas melhores decisões de formações foram tomadas no verão), nas eleições legislativas de outubro e no que mudou nas nossas vidas do ano passado para este. Se eu somar todas as mudanças que tenho documentado, ano a ano, desde os anos 70, sempre no verão, não tenho a certeza se identificarei um padrão de aceleração no ritmo e/ou na profundidade de mudança. Mas há quem defenda que sim, que a tecnologia na atual fase de digitalização está em aceleração exponencial. E nós?

 

Nós, humanos, dotados de inteligência natural de forma heterogénea, temos revelado ao longo de milénios significativa capacidade de adaptação e evolução. As descobertas científicas e desenvolvimentos tecnológicos que a humanidade tem acompanhado ao longo da História resultam num balanço habitualmente positivo, em que se regista progresso e melhores condições de vida (em média) a par de um maior desenvolvimento cultural, artístico e humanista (igualmente em média). Nos anos mais recentes, a generalização de acesso a informação na internet, redes sociais e acumulação de "big data", deu-nos um mundo novo, em parte virtual, mas que ocupa muito do nosso tempo. Melhorou, em diversos aspetos, a nossa qualidade de vida, mas também trouxe novas incertezas.

 

O potencial de desenvolvimento da chamada Inteligência Artificial está na ordem do dia. Pode trazer enormes benefícios em diversas áreas, com particular destaque para os cuidados de saúde, mas acarreta novos perigos. Estes perigos têm muitas vezes que ver com o excesso de informação de que passamos a dispor e que não conseguimos ou sabemos (ou queremos) processar, com risco de partilha de informação descontrolada, perda de privacidade e sujeição a manipulação, para além de questões de cibersegurança. Em certa medida, grandes empresas do admirável mundo novo, como Facebook ou Google, conhecem-nos melhor do que nós próprios. Que fazer?

 

A autoridade australiana para a concorrência e para o consumo (ACCC, Australian Competition & Consumer Commission) divulgou, no dia 26 de julho, um relatório com 23 recomendações - que cobrem lei da concorrência, proteção de consumidores, regulação dos media e lei da privacidade - com o objetivo de implementar medidas que protejam o país e os seus cidadãos contra a dominância das plataformas digitais. Recomendo, vivamente, a leitura deste relatório "Hoslistic, dynamic reforms needed to address dominance of digital platforms" (https://www.accc.gov.au/media-release/holistic-dynamic-reforms-needed-to-address-dominance-of-digital-platforms).

 

As recomendações da Autoridade Australiana surgem na sequência de um Inquérito (Digital Platform Inquiry) lançado em dezembro de 2017 e agora concluído. O relatório expressa uma enorme preocupação com o impacto que estas grandes plataformas digitais passaram a ter na vida e na economia dos Australianos, que atribuem ao resultado do que classificam como posição de dominância da Google e do Facebook. Para além das questões de perda de privacidade e manipulação das pessoas enquanto consumidores dos seus produtos e serviços (e dos produtos e serviços dos seus clientes), a ACCC alerta para o grau de desinformação em que passámos a estar mergulhados, ao qual se associa uma crescente perda de confiança naquilo que é noticiado pelos media ou outros. Eu acrescentaria, ainda, uma crescente perda de confiança (em particular dos mais novos) em tudo o que é "institucional" e o perigo que isso acarreta para a vida em democracia.

 

Quem lê o relatório e a alteração que pede ao Facebook e à Google na prestação de contas e informação acerca dos seus algoritmos, tira duas conclusões: que as ficções de Orwell e Huxley estão a transformar-se em realidade (o "big brother" já não é ficção) mas que há esperança e uma necessidade urgente de evitar um poder de mercado abusivo, e uma significativa e crescente concentração de recursos, com novas medidas de proteção ao consumidor, à concorrência, à informação devidamente escrutinada e à democracia.

 

E enquanto não somos completamente controlados (por Inteligência Artificial e pelas nossas próprias obsessões nas plataformas digitais): Boas Férias!! Há que aproveitar a indulgência típica do verão.

 

PS - Obrigada, Eliano Marques, pela informação acerca das recomendações da ACCC - é bom saber que há quem trabalhe no centro deste mundo novo mantendo uma consciência ética apurada. "Mea culpa": conheci este ex-aluno do ISEG nas redes sociais por partilharmos interesses nestas áreas.

 

Dean do ISEG - Lisbon School of Economics & Management. Universidade de Lisboa

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