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Clara Raposo 15 de Abril de 2020 às 09:20

O Amor e a Economia em Tempos de Corona

Na economia, tudo é uma questão de redistribuição. O problema vai estar na forma como o mundo contabilizar esta crise e considerar que a está a financiar. Apoios sob a forma de dívida vão ser sempre um problema, mas parece ser o único mecanismo viável de que o mundo se lembra.

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Parece mentira, mas é a mais pura verdade: em agosto de 2019 reli “O Amor nos Tempos de Cólera” do grande Gabo. Andava com essa vontade desde que completara 20 anos da minha surpreendente ida à Colômbia (sim, no tempo da guerrilha a sério), na qual tive oportunidade de passar um serão com a revisora dos textos de García Márquez. Decidi, então, reler essa obra quando fosse mais madura. Promessa que cumpri, com muito prazer, numa praia no Índico. Longe estava eu de imaginar no verão passado que estaríamos hoje a braços com uma outra forma de peste e que aquela leitura me seria tão útil.

Nos tempos de cólera, claro que a figura do médico é central e muito respeitada, tal como hoje na homenagem que prestamos aos profissionais de saúde. Mas o amor que se destaca na obra é o amor romântico de Florentino Ariza e Fermina Daza, que se materializa já na velhice e é celebrado a dois num navio que conseguem ter só para si após içarem a bandeira amarela de peste que obrigaria a quarentena. Prática corrente na época, portanto. Esta não é a primeira vez que a humanidade vive um período de quarentena e distanciamento social forçado por uma doença contagiosa. Mas desta vez somos nós que o estamos a viver e com um grau de informação e comunicação por todo o mundo que é ímpar. Num mundo mais globalizado, interligado e móvel do que nunca. Esta doença trouxe medidas de alteração profunda de hábitos e na economia, com coordenação global (algo descoordenada, é certo) a um nível que há uns tempos nos teria parecido impensável. E, se estamos em casa, é por três motivos: porque a lei assim manda, porque temos medo e por amor – à nossa própria vida, mas não só.

O facto de esta doença poder atingir indiscriminadamente ricos e pobres (inicialmente até, na Europa, os mais prósperos, que mais viajaram) fez com que o amor à própria vida nos levasse a aderir às atuais medidas de reclusão. Mas não foi só isso. Há o amor pelos nossos filhos, pelos pais, pelos avós, pelas nossas caras-metades... claro que sim, a vontade de os preservar. Mas também há o amor abnegado e profissional de quem cuida dos doentes e de quem nos abastece, um amor de que nem se tem consciência quando se exerce. E eu vou mais longe – e hesitei antes de o escrever, mas faço-o à mesma. É também uma forma de amor aquilo que eu sinto pelos estudantes que se viram com a vida suspensa ainda tão novos e é dessa forma, gostando, que me esforço com os meus colegas para os acompanhar tão bem quanto possível nesta fase, seja com as aulas e matérias, seja com o exemplo ou uma palavra sentida de encorajamento, alegria e determinação. No fundo, o respeito que tenho pela vida de cada um, pelas mesmas 24 horas que cada um de nós respira num dia, é um simples e desinteressado amor pelo próximo, que não é um conceito abstrato para muitos de nós. Essa é a beleza dos dias que estamos a viver, a do amor que vai para além do umbigo. Não deixa de assentar bem esta mensagem logo a seguir à Páscoa, mesmo para quem, como eu, tem reservas quanto à religião. Até pela pertença a uma sociedade e pela existência de um Estado que nos represente e coordene sentimos algo próximo do amor – um Estado não autocrático, mas responsável, que aguente a crítica, mas não desista.

E depois temos a economia, que não costumamos associar ao amor (pelo menos ao “verdadeiro...”). Confesso, também existe o meu amor pela economia! De facto, parámos muitas atividades e alterámos radicalmente o funcionamento de muitas outras. Alguns de nós até trabalhamos ainda mais atualmente. Mas percebemos que o “on hold” geral tem de ser, “custe o que custar” – mas é mesmo isso, tem custos e temos de viver com isso. Foi por amor. E há os impacientes. Com medo de perder tudo, ou alguma coisa. Ou, talvez?, preocupados com os mais fracos do ponto de vista económico. Pedindo a retoma da atividade económica. Ela vai ter de vir. É mesmo só uma questão de tempo. Mas temos de perceber e comunicar bem os riscos, para todos e cada um. Sem manipular.

E quanto à economia – vamos levar um belo abalo em números se se continuar a medir a economia da mesma forma de sempre durante esta pandemia. Se pudéssemos parar o tempo e “as contagens” neste hiato em que a vida e a economia estão “on hold”, teríamos uma parte da solução, mas não sabemos como. No fundo, o problema é que eu deixei de ir ao cabeleireiro e de o pagar, deixei de ir a uma conferência em Budapeste e não a paguei, não marquei férias e não as paguei, deixei de almoçar e jantar fora e não substituí isso por takeaway na mesma medida e nos mesmos sítios. De entre tudo, passei a gastar mais no supermercado. Gasto mais água, eletricidade e gás em casa também. Deixei de andar de carro e de pagar o combustível. Continuei a consumir serviços online e a cultura que se consegue obter assim. Se continuasse a pagar tudo igual como se isto não se estivesse a passar, não daríamos pela crise no PIB. Mas damos. E temos de financiar os ventiladores e o SNS e tudo o mais. Claro que temos. E outros ventiladores para a economia e para as empresas também...

Mas, na verdade, seremos capazes. Na economia, tudo é uma questão de redistribuição. O problema vai estar na forma como o mundo contabilizar esta crise e considerar que a está a financiar. Apoios sob a forma de dívida vão ser sempre um problema, mas parece ser o único mecanismo viável de que o mundo se lembra. Provavelmente estávamos a precisar de mais imaginação do que isso. Mais imaginação até do que “anything bonds”; “bonds” numa crise pandémica deveriam ser mais laços que nos unissem do que obrigações... É difícil.

 

Se fomos capazes de parar para protegermos a vida dos mais velhos, podemos também deixar uma economia mais limpa e evoluída aos mais novos.



E, para terminar, numa nota positiva para a economia do futuro, um efeito colateral da atual paragem económica mede-se na qualidade do ambiente no planeta, que também poderá trazer melhor e mais vida no futuro. Já agora, que isso não se desaproveite no relançamento das economias. Se fomos capazes de parar para protegermos a vida dos mais velhos, podemos também deixar uma economia mais limpa e evoluída aos mais novos. Chamem-me utópica, se quiserem. Eu chamo-lhe ambição. Por Amor? Ou Por Economia?

PS – Na crónica de maio, já está prometido o tema e o título: “Do Inimigo Invisível à Mão Invisível” – vamos ver como a recuperação económica vai ser possível e melhor do que muitos creem. Escrevo esta crónica enquanto o PM se reúne com 25 economistas, três dos quais meus colegas no ISEG, que aqui saúdo (sim, é saúde que se deseja a quem se quer bem).

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