Clara Raposo
Clara Raposo 05 de fevereiro de 2019 às 20:58

O lado B da responsabilidade social das empresas

Será que uma empresa com uma forte política de utilização de energia de fontes renováveis consegue sobreviver face a concorrentes que recorrem a fontes de energia fóssil mais baratas? Possivelmente não.

Nas últimas duas décadas tem vindo a assumir maior protagonismo a chamada Responsabilidade Social das Empresas (RSE ou "corporate social responsibility"). Lendo as palavras "responsabilidade" e "social" somos imediatamente levados a pensar neste conceito de forma positiva. E mais ainda quando associamos esta "responsabilidade social" às "empresas", por vezes entidades algo abstratas para o comum dos mortais, facilmente associadas, no imaginário coletivo, a objetivos puramente capitalistas de prossecução do lucro.

 

Convém, portanto, saber de que falamos quando falamos em RSE. Se procurarmos a informação que consta no site da DGAE, encontramos o seguinte: "...Este movimento encontra-se em estreita sintonia com a consciência da sociedade e dos mercados na necessidade de um maior equilíbrio entre as atuações humanas individualmente consideradas e as iniciativas empresariais num quadro de progressiva evolução para novos modelos de cidadania individual e empresarial em sintonia com o desiderato do desenvolvimento sustentável..."

 

Ou seja, parece haver algum alinhamento entre os objetivos de desenvolvimento sustentável enunciados pela ONU e o comportamento e práticas de empresas que demonstrem ser socialmente responsáveis. Muito louvável, portanto. Reconheço todos os méritos de uma atuação socialmente responsável por parte das empresas, que promova melhores condições de vida na Terra. Defendo, aliás, que a educação que oferecemos nas nossas escolas e universidades deve permitir despertar as novas gerações para uma perspetiva de análise mais global do impacto provocado pelas decisões empresariais, ao mesmo tempo que lhes dá acesso a ferramentas de medição e avaliação de externalidades.

 

Tenho a convicção de que muitos dos jovens de hoje têm estas preocupações, em particular no que diz respeito à preservação do ambiente. Contudo, importa refletir na forma como esta preocupação que vamos manifestando em iniciativas individuais de empresas (e indivíduos) é deixada ao cuidado de cada um, sem grande coordenação e, particularmente, sem uma avaliação integrada.

 

Será que o que fazemos atualmente, cada um por si ou em pequenos grupos, é suficiente para deixar uma marca convincente de atuação coletiva responsável? A verdade é que, em certa medida, a RSE tem uma dimensão de auto-regulação privada. Pode acontecer serem as empresas a imporem a si próprias determinados comportamentos ou limites de atuação. Porém, se pensarmos em setores altamente concorrenciais, dificilmente uma empresa isolada pode adotar uma medida socialmente responsável se esta medida tiver elevados custos de implementação - os seus concorrentes menos "socialmente responsáveis", com origens muito variadas, e com menores custos, rapidamente poderão ganhar-lhe quota de mercado e até eliminá-la.

 

Resumindo a minha preocupação nesta matéria: será que uma empresa socialmente responsável sobrevive num mercado que não regula nem exige comportamentos socialmente responsáveis por parte das empresas? Num exemplo muito concreto: será que uma empresa com uma forte política de utilização de energia de fontes renováveis consegue sobreviver face a concorrentes que recorrem a fontes de energia fóssil mais baratas? Possivelmente não.

 

Numa sociedade bem informada, se uma empresa souber claramente comunicar a qualidade dos seus produtos/ serviços, é concebível que os consumidores optem por um produto/serviço mais caro se este trouxer alguma mais-valia social que seja bem compreendida. No entanto, a tentação para escolher a opção mais barata (se disponível) vai ser grande.

 

Importa, portanto, discutir a eficácia de uma RSE não coordenada e sem vetores básicos de regulação, sendo relevante o papel que as Universidades, em diferentes áreas científicas, podem ter na promoção de métricas e modelos de avaliação, informação e comunicação. Terá de haver alguma coordenação no estabelecimento dos limites de intervenção das empresas em diversas áreas - muito em especial em setores altamente concorrenciais.

 

Um outro debate suscitado pelo tema da RSE é a forma como os Estados, por vezes, estimulam o desenvolvimento de iniciativas nesta matéria. Ao dar liberdade de escolha às empresas ("versus regular", limitando determinados comportamentos), pode acabar por haver uma delegação de competências dos Estados nas empresas quanto à aplicação de recursos escassos. E se é verdade que a liberdade e a iniciativa privada são de valorizar, também há que reconhecer o seu lado B: que um grupo reduzido de decisores empresariais pode acabar por condicionar fortemente uma sociedade menos informada.

 

PS - Xin nian hao! Votos de um Bom Ano Novo Chinês!

 

Dean do ISEG - Lisbon School of Economics & Management. Universidade de Lisboa

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