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Clara Raposo - Professora no ISEG 04 de Dezembro de 2018 às 19:52

Privacidade ou publicidade e o futuro da Europa

Todo o referencial desta nova geração se centra em si própria e no seu círculo de amigos. Desta forma, tendem a estabelecer-se relações fortes entre os mais novos, que partilham muita informação entre si.

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Tenho, aproximadamente, o dobro da idade dos meus alunos (em média). Esta constatação diária faz-me pensar na vida de estudante de há duas dúzias de anos e naquilo que eram os meus hábitos e as minhas aspirações. Naturalmente, comparo com o que vejo ser a vida dos atuais estudantes e as suas expectativas quanto ao futuro - e, principalmente, quanto ao presente. Esta reflexão é da maior atualidade, num momento em que a Europa da paz e da democracia enfrenta dois grandes riscos: populismo crescente na generalidade dos países e reduzido interesse pelo Estado por parte dos mais novos.

 

O fenómeno de aparente desprendimento dos mais novos em relação ao Estado ou a uma qualquer "autoridade" é algo surpreendente, porque coincide com um particular interesse desta geração em questões sociais e de sustentabilidade. No entanto, é um interesse que aparenta ser um bocadinho na linha do "cada um por si" ou com o seu grupo restrito de amigos ou contactos. Recordo que, há duas dúzias de anos, também eu tinha preocupações sociais e cívicas (e continuo a ter) - mas, possivelmente, aceitava com maior naturalidade que houvesse uma coordenação mais centralizada dessas questões e da sua hierarquização em termos de prioridade. O que mudou? Naturalmente, muita coisa mudou, sendo que saliento dois aspetos.

 

Em primeiro lugar, o tempo que se passa com os amigos/colegas tendeu a aumentar versus o tempo despendido com a família, dados os longos dias de trabalho dos adultos pais e mães e os longos dias de escola e de atividades extra-curriculares dos filhos. Todo o referencial desta nova geração se centra em si própria e no seu círculo de amigos. Desta forma, tendem a estabelecer-se relações fortes entre os mais novos, que partilham muita informação entre si. Enquanto, para mim, a preservação da minha privacidade é um valor essencial, um valor em si mesmo, para muitos jovens a partilha da sua vida pessoal com os amigos é mais natural e implica alguma "publicidade". O que para mim se deseja privado, para muitos, nas gerações seguintes, deseja-se público.

 

Em segundo lugar, as novas tecnologias trouxeram formas de rápida comunicação entre amigos (reais ou virtuais), o que acelera a ideia de partilha e de publicidade - só é real o que é reconhecido e "liked". É esta a beleza do admirável mundo novo em que vivemos, a facilidade de disseminar informação e chegar a novos públicos. Mas, por outro lado, esse "matching" é feito de forma algo indiscriminada e descoordenada. E, no fim, o que é que é importante? Tudo pode ser, desde os pequenos aos grandes sonhos de cada um e do seu grupo. Contudo, é importante não esquecer que, sem a envolvente de um chapéu da sociedade como um todo e de uma estrutura de solidariedade instituída, pouco diferentes seríamos de animais irracionais.

 

É por isso que receio que movimentos populistas penetrem facilmente em gerações que pouco partilham com os mais velhos e que se deslumbram mais facilmente com a "publicidade," como mencionei. Desejo que não.

 

Esta quinta-feira, o comissário europeu Pierre Moscovici junta-se ao primeiro-ministro António Costa para uma apresentação e debate sobre "Que futuro para a Europa?". Será na minha escola e lá estarei, com grande curiosidade para saber em que medida os mais novos da assistência vão ser seduzidos por este debate entre dois europeus convictos nascidos nos anos 50 e 60. Receio que não, mas desejo que sim. Desejo que, além das selfies e outras fotos publicadas nas redes sociais, os futuros decisores vejam além de um par de fatos e gravatas e percebam que, mais do que a partilha no insta ou onde quer que seja (que eu também faço, bem sei...), o que interessa mesmo é o futuro comum - que se faz com os nossos "amigos e seguidores", mas, principalmente, com pessoas reais, algumas das quais desconhecidas, mas não menos relevantes.

 

Como reforçar a participação? Como partilhar direitos e uma estratégia de futuro, e não apenas regras entre diferentes Estados-membros? Como promover causas comuns não demagógicas e mobilizadoras? Como preservar identidade nacional e respeito pela diferença? Envolvendo diferentes gerações nos processos de decisão deve ser um bom princípio.

 

P.S. - Feliz Natal! Para o ano novo vamos voltar às finanças e falar de taxas de juro.

 

Dean do ISEG - Lisbon School of Economics & Management - Universidade de Lisboa

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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