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Daniel Traça 29 de Janeiro de 2019 às 21:10

Passar à ação

O risco de inação será um degradar contínuo do equilíbrio social e económico que sustenta o nosso sistema político, o que, a prazo, porá em risco a estabilidade democrática.

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Num estudo recente produzido para a CIP pela McKinsey & Company, com a colaboração da Nova SBE, foi estimado que até 2030 seriam destruídos, em Portugal, cerca de 1,1M de postos de trabalho, o que equivale à estatística impressionante de um em cada quatro trabalhadores. As estimativas são superiores, em termos relativos, a outros países onde a mesma metodologia foi aplicada pois, em Portugal, uma proporção maior das ocupações têm um caráter repetitivo e mais passível de automação. O mesmo estudo aponta para o potencial da criação de 0,6M a 1,1M postos de trabalho, mas o cenário mais positivo implica políticas públicas ativas quanto à promoção de emprego em áreas como a renovação de infraestruturas ou maior investimento em novas fontes de energia. É importante notar que, mesmo neste cenário neutro em que a destruição e a criação de emprego seriam equivalentes, seria preciso reciclar e aumentar as competências de 0,7M de trabalhadores, dada a diferença de competências entre os empregos destruídos e os empregos que surgirão. Este é, de facto, um desafio gigantesco!

 

O risco de inação será um degradar contínuo do equilíbrio social e económico que sustenta o nosso sistema político, o que, a prazo, porá em risco a estabilidade democrática. As derivas populistas que crescem pelo mundo são sintoma do início deste processo e será um erro dramático assumir como eterna a exceção portuguesa que temos vivido.

 

Em alternativa, uma política ativa de desenvolvimento dos nossos recursos humanos criará oportunidades para alavancar a automação a fim de aumentar a nossa competitividade e produtividade, criar empregos menos repetitivos e de maior qualidade e tirar partido de novas tecnologias em áreas como a medicina, a mobilidade e a energia, que são capazes de aumentar dramaticamente a qualidade de vida.

 

O desafio é que as soluções para a formação, ao longo da nossa vida, são ainda pouco eficazes em Portugal. Segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), a taxa de participação de indivíduos entre os 25 e os 64 anos em ações de formação estava, em 2016, alinhada com a média comunitária, tendo diminuído a educação formal e aumentado a não formal relativamente a 2011. Dado o nível reduzido da população adulta em Portugal com formação superior (relativamente ao resto da UE), este alinhamento é claramente insuficiente para combater o défice de competências em Portugal. Talvez seja por isso que, no último inquérito que o Banco Europeu de Investimento realizou às empresas portuguesas, estas se queixaram relativamente mais da escassez de competências nos empregados de nível superior do que nos de nível inferior, quando comparadas com as empresas de outros Estados-membros.

 

Ativar a formação de adultos em áreas estratégicas é, assim, uma urgência nacional, no contexto das previsões deste estudo importante e do estado atual do ecossistema português. É preciso, por conseguinte, diagnosticar, analisar boas práticas internacionais, desenvolver e executar uma estratégia a longo prazo, que envolva todos os "stakeholders" e que tenha um apoio político de largo espetro. Deixo aqui algumas sugestões para esta estratégia: 

  • Ajustamento da oferta das universidades e de outras instituições na formação ao longo da vida; 
  • Investimento das empresas e das associações patronais no desenvolvimento dos recursos humanos através de modelos de partilha de custo (i.e. compensação da empresa aquando da saída do trabalhador durante um prazo pré-acordado); 
  • Parcerias entre empresas e instituições de ensino, nomeadamente nas áreas da tecnologia e da saúde; 
  • Tratamento fiscal favorável, dado pelo governo, à formação em áreas específicas, financiada por empresas ou por particulares; 
  • Crédito/subsídio para fins educacionais para pessoas que estejam no desemprego; 
  • Sistemas de informação de fácil acesso (portais, apps, etc.) e campanhas de informação que possibilitem sinalizar a escassez de competências enfrentadas pelos empregadores e que sejam desenvolvidos por associações empresariais ou pelo próprio governo. 

Acima de tudo, é imperioso não seguir a "estratégia de avestruz". Estes problemas não desaparecerão se os ignorarmos, se acharmos que o mercado resolve tudo ou se perdermos muito tempo a discutir a sensibilidade das previsões. Vale a pena usar outras metodologias para confirmar a magnitude do problema, mas o mais importante é passar à ação, pois a revolução digital já deu provas de afetar a economia e a sociedade a uma velocidade sempre maior do que a que esperamos.

 

Professor na Nova SBE

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