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Daniel Traça 11 de Dezembro de 2019 às 18:35

Resoluções para 2020

O crescimento da produtividade precisa do contributo de trabalhadores e empresas, mas precisa sobretudo do alinhamento de elementos como ambição, estratégia e planeamento entre as entidades públicas, as empresas e as universidades.

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À medida que o ano de 2019 vai chegando ao fim, é altura de pensar no que será 2020. Com o pessimismo a imperar nas previsões para a economia europeia, nomeadamente com a desaceleração na Alemanha e em Espanha, a economia portuguesa tenderá a sentir a pressão sobre a atividade exportadora e o turismo. Deste modo, o crescimento em Portugal prevê-se mais baixo em 2020 apesar de não se antever uma recessão. Portugal e os portugueses falarão de um fim de ciclo, assumindo uma vez mais a vitimização da economia portuguesa à mercê dos ventos europeus, e tudo será como sempre.

 

A alternativa é assumir a necessidade de uma estratégia de afirmação internacional capaz de gerar o crescimento da produtividade, que tem estado ausente antes, durante e depois da crise, de forma sustentada. Sem muito mais espaço para desenvolver a economia através do aumento da empregabilidade, já com níveis históricos, a produtividade das empresas será a única forma de aumentar salários de forma equilibrada. O crescimento da produtividade precisa do contributo de trabalhadores e empresas, mas precisa sobretudo do alinhamento de elementos como ambição, estratégia e planeamento entre as entidades públicas, as empresas e as universidades.

 

O percurso singular da economia portuguesa nos últimos oito anos deve inspirar essa estratégia. Durante este tempo, os portugueses passaram por um dos períodos mais difíceis da sua história, marcado pelo desemprego, pela pobreza e por falências com níveis sem precedentes. A este desafio, os portugueses responderam estoicos, unidos e pragmáticos. Os empresários encontraram novos mercados na exportação, enquanto cortavam dramaticamente os custos. O Estado reduziu a sua despesa, com os funcionários públicos a sofrerem o ónus do ajustamento. Os trabalhadores sofreram a precariedade e a dificuldade do desemprego, mas as instituições sobreviveram intactas.

 

Neste processo, aprenderam-se lições importantes: o défice e a dívida são inimigos do desenvolvimento e as exportações e a internacionalização são uma pré-condição. Estas lições, partilhadas pela sociedade portuguesa, asseguraram um oásis de estabilidade que permitiu recuperar a economia. Assim, o país renasceu para um novo ciclo de otimismo, que é hoje a sua maior vantagem competitiva, num mundo crescentemente devastado pelo pessimismo, a intolerância e o sectarismo. Com base nesse otimismo, Portugal foi descoberto pelas estrelas mediáticas, pelos investidores, pelos empreendedores, pelos imigrantes com vidas de luxo.

 

É agora altura de transformar esse otimismo numa estratégia de crescimento. Alavancando a hospitalidade e o estilo de vida que são nossos, e o talento e a resiliência que já demonstrámos, precisamos de uma estratégia que potencialize empresas dinâmicas, talento e investimento internacional, agregados numa especialização em setores como o turismo de valor acrescentado ou a saúde, capazes de posicionar o país no futuro da economia mundial. Essa estratégia deverá definir as reformas e as políticas mais importantes, de âmbito local e nacional, bem como informar o desenvolvimento do talento e das infraestruturas em Portugal.

 

2020 será o ano para pensar nesta estratégia. A abordagem demonstrará a diferença entre o fim de um ciclo, com o desperdício de oito anos de transformação e de uma oportunidade internacional singular, e início de um novo sentido para um decénio diferente, em que deixamos de ser passageiros da locomotiva europeia e passamos a querer assumir o nosso destino. Essa estratégia seria um excelente presente de Natal para os que continuam a acreditar num futuro diferente para os jovens de Portugal.

 

Professor na Nova SBE

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