A escassez do futuro

A prosperidade não será determinada apenas pela qualidade dos algoritmos que utilizamos. Será determinada, sobretudo, pela qualidade dos líderes que formamos.

Recentemente, na Conferência InovaRH Norte, realizada na Católica Porto Business School, lancei uma questão simples, mas decisiva: de que líderes precisamos para construir um futuro mais próspero?

A pergunta surge num momento particularmente desafiante. Nunca tivemos acesso a tanta informação, tanta capacidade computacional e tantas ferramentas capazes de aumentar a produtividade. A inteligência artificial promete transformar organizações, redefinir profissões e alterar profundamente a forma como trabalhamos, aprendemos e tomamos decisões.

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Mas talvez a maior ilusão do nosso tempo seja acreditar que os desafios do futuro serão essencialmente tecnológicos. Não serão. Serão humanos.

A história económica mostra-nos que os grandes avanços tecnológicos nunca produziram, por si só, prosperidade duradoura. A tecnologia cria possibilidades. Mas o valor económico e social depende sempre da forma como as pessoas, as organizações e as instituições escolhem utilizá-la.

É por isso que a questão fundamental não é o que a inteligência artificial consegue fazer. A verdadeira questão é o que nós, humanos, decidiremos fazer com ela. A discussão sobre inteligência artificial tem sido dominada pelos ganhos de eficiência. E esses ganhos são reais. As organizações conseguem hoje automatizar tarefas, processar volumes massivos de informação e obter recomendações cada vez mais sofisticadas.

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Contudo, começam também a surgir sinais de alerta. Investigação recente sugere que a crescente dependência de sistemas inteligentes pode criar um fenómeno paradoxal: melhores respostas no curto prazo, mas menor capacidade de aprendizagem no longo prazo. Quando a tecnologia passa a fornecer automaticamente soluções, reduz-se o incentivo ao esforço intelectual necessário para construir conhecimento próprio.

O risco não é apenas tecnológico. É civilizacional. Uma sociedade que delega progressivamente a análise, o julgamento e a reflexão em sistemas automatizados pode ganhar eficiência, mas perder discernimento. Por isso, talvez o ativo mais escasso das próximas décadas não seja a capacidade computacional. Será a capacidade humana de pensar criticamente, interpretar contextos complexos, tomar decisões éticas e liderar pessoas.

Num mundo em que as máquinas serão cada vez melhores a responder, os líderes terão de ser cada vez melhores a formular as perguntas certas. E aqui reside uma das grandes responsabilidades das universidades e das "business schools".

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Formar líderes já não pode significar apenas transmitir competências técnicas. Significa desenvolver capacidades de análise, sentido crítico, consciência ética e visão de longo prazo. Significa preparar profissionais capazes de navegar ambientes de elevada incerteza sem perder referências fundamentais. Assim, a inteligência artificial veio reforçar, e não diminuir, a importância destas competências.

Ao mesmo tempo, os desafios da sustentabilidade recordam-nos que nenhuma decisão ocorre num vazio. Durante muitos anos, crescimento económico e sustentabilidade foram frequentemente apresentados como objetivos em tensão. Hoje percebemos que essa dicotomia é artificial. O verdadeiro crescimento só é sustentável quando cria valor económico sem comprometer a coesão social, os recursos naturais e as oportunidades das gerações futuras.

As organizações são cada vez mais chamadas a responder a expectativas mais amplas. Já não basta gerar resultados financeiros. Espera-se que contribuam para a inovação, para a inclusão, para a qualidade do emprego e para o desenvolvimento das comunidades onde operam.

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Também por isso a liderança se tornou mais exigente. Os líderes de amanhã terão de gerir organizações mais tecnológicas, mas simultaneamente mais humanas. Terão de lidar com volumes crescentes de informação, mas também com níveis crescentes de complexidade ética. Terão de conciliar eficiência com responsabilidade, competitividade com propósito e inovação com impacto social. A verdadeira liderança continuará a não ser uma questão de poder. Será uma questão de serviço. Serviço às pessoas, às organizações e à sociedade.

Num contexto marcado pela aceleração tecnológica, pela fragmentação da informação e pela incerteza geopolítica, o futuro pertencerá às organizações que conseguirem combinar conhecimento, valores e visão de longo prazo. A prosperidade não será determinada apenas pela qualidade dos algoritmos que utilizamos. Será determinada, sobretudo, pela qualidade dos líderes que formamos. E essa poderá ser a grande escassez do futuro.

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