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José Paulo Esperança 12 de Março de 2019 às 19:30

O fim do dinheiro

O dinheiro não é eficiente. Basta ver o tempo que é consumido com a entrega de trocos, cada vez que pagamos um café. O setor financeiro vai tornar-se mais eficiente com a sua extinção e prestar um melhor serviço à economia real.

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Durante quanto tempo utilizaremos o dinheiro, moedas e notas, como meio de pagamento? Até quando precisaremos de converter a nossa moeda numa divisa diferente, sempre que nos deslocamos ao exterior? Será o futuro do dinheiro idêntico ao do telefone fixo?

 

Pouco antes da criação do euro, um jornalista belga visitou os 12 países fundadores do euro. Partiu com uma determinada quantia em francos belgas que foi trocando, sucessivamente, pela moeda local. Quando regressou à Bélgica, dispunha de apenas 40% do valor inicial.

 

Nessa altura eu lecionava a disciplina de finanças internacionais e fiquei sempre com a sensação que a criação do euro se destinava a eliminar a minha profissão. Na realidade, a minha comunidade estava longe de ser a única a ser afetada. Nessa época, muitos milhares de pessoas, nos bancos e nas empresas, dedicavam o seu tempo a gerir operações cambiais, à vista ou a prazo e a cobrir os riscos económicos e contabilísticos que daí resultavam. Contratos forward, swaps, futuros e opções cambiais, eram alguns dos múltiplos instrumentos que as empresas envolvidas em comércio internacional deviam conhecer e, eventualmente, utilizar. Os viajantes também não podiam ir tomar um café a Badajoz, sem adquirir umas pesetas. Hoje, mais de 50% das exportações e importações portuguesas são feitas na nossa moeda. Também a maioria dos turistas que nos visitam utiliza a mesma moeda que nós. Suponho que as saudades do escudo, lira, florim, etc., são escassas.

 

Apesar desta evolução, continuo a ter em casa uma reserva de libras, reais, dólares, americanos e canadianos e até escudos, de Cabo Verde, que sobraram de viagens a zonas onde o euro não é utilizado. Também as empresas com transações fora da zona euro continuam a precisar de gerir o risco cambial. Os imigrantes que transferem dinheiro para os familiares dos países de origem sabem o custo do câmbio entre divisas. Basta visitar uma casa de câmbios para nos apercebermos da diferença entre o preço de compra e venda de uma determinada divisa, que chega a ultrapassar os 20%.

 

Diferenciais (spreads) desta dimensão criam oportunidades de negócio que empreendedores vocacionados para o setor financeiro não deixam de aproveitar. A Revolut é um exemplo de operador financeiro que toma depósitos e permite pagamentos em diferentes moedas, incluindo criptomoedas, em qualquer parte do mundo, mediante uma pequena comissão. Outro exemplo é a Transferwise uma das empresas de "fintech" mais valiosas do mundo, que elimina o risco cambial através de transações dentro de cada zona monetária que se anulam reciprocamente graças ao elevado número de transações que gere diariamente.

 

No entanto é a própria noção de dinheiro físico, em notas e moedas, que tende a desaparecer. Os telefones móveis (moderadamente) inteligentes constituem uma plataforma cada vez mais universal que se substitui ao dinheiro físico e aos cartões de crédito. Tanto em países africanos como na China (Alipay/Ant Financial) ou na Suécia (Swish), os telemóveis permitem fazer pagamentos, transferências ou depósitos. Se acrescentarmos a capacidade de conceder empréstimos diretos ou de investir no capital de empresas, viabilizada pelas plataformas de "crowdfunding", passa a estar disponível um vasto conjunto de serviços financeiros que dispensa o uso de dinheiro e carteiras.

 

Os riscos de exclusão e iliteracia financeira aumentam, sobretudo na fase de transição para a sociedade sem dinheiro, exigindo que a educação e regulação acompanhem a mudança de paradigma. Se por um lado as cripto moedas prometem um modelo libertário e sem controlo, os pagamentos por telemóvel sugerem um registo pleno das mais insignificantes transações. Afinal também a entrada do digital (GSM) nas telecomunicações móveis prometia total encriptação para logo a seguir ser totalmente acessível pelas entidades autorizadas.

 

O dinheiro não é eficiente. Basta ver o tempo que é consumido com a entrega de trocos, cada vez que pagamos um café. O setor financeiro vai tornar-se mais eficiente com a sua extinção e prestar um melhor serviço à economia real. Precisamos de nos preparar para um mundo sem dinheiro, na regulação, na proteção aos mais desfavorecidos e no ensino das finanças.  

 

Dean da ISCTE Business School

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