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José Paulo Esperança 08 de Janeiro de 2019 às 20:20

O futuro do sistema financeiro

É possível que a generalização dos pagamentos por telemóvel, já comum em muitos países, venha a destronar a rede de máquinas ATM, do mesmo modo que a internet tornou obsoleta a rede Minitel, orgulho francês da década de 80.

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Um espectro assombra o sistema financeiro - o Fintech (que pode talvez ser traduzido por finanças tecnológicas) ameaça a banca, os seguros e as moedas garantidas pelos bancos centrais.

 

A primeira cripto moeda - Bitcoin - acaba de atingir os 10 anos de idade, com uma flutuação típica das mais vertiginosas montanhas russas. Criada em 2009, atingiu o valor máximo de 39 cêntimos de dólar em 2010, registou um crescimento elevadíssimo em 2017, com um pico superior a 16.000 dólares, para depois cair abaixo dos 4.000 dólares. Continua a não ser conhecido o seu criador, que usa o pseudónimo de Satoshi Nakamoto, existindo fortes dúvidas que seja de facto japonês. Poucas inovações terão suscitado opiniões tão extremadas como a Bitcoin: instrumento de libertação e universalidade para uns, esquema de Ponzi ou meio de pagamento entre criminosos para outros.

 

Para além das já numerosas cripto moedas usadas para financiar start ups ou até Estados, como a Venezuela, a internet veio potenciar numerosos instrumentos financeiros que permitem níveis de diversificação de risco e desintermediação financeira impossíveis de prever até há poucos anos atrás. O financiamento pela multidão (crowdfunding) nas vertentes de apoio a causas, a novas empresas ou na concessão de crédito diversificado está a crescer de forma exponencial, talvez ainda mais rápida que a valorização da Bitcoin. Diversas plataformas com sede ou desenvolvimento em Portugal adquiriram uma posição de destaque neste âmbito. PPL, Seedrs e Raize são exemplos conhecidos, respetivamente, dos três tipos de crowdfunding referidos.

 

Talvez a posição destacada do Fintech no país dos (por enquanto) três unicórnios não deva surpreender. Afinal, Portugal tem hoje uma das mais densas redes de ATM do mundo, com funcionalidades que ainda surpreendem os nossos visitantes. Também na sua génese esteve presente a ansiedade associada às novas tecnologias, dado que se receava que as ATM gerassem o desemprego dos funcionários das caixas dos bancos. Depois da hesitação inicial, em que as primeiras instalações foram proibidas pelo Banco de Portugal, os 12 equipamentos de 1985 deram origem a 9500 em 2002, segundo um artigo de Mike Lee, então diretor da associação mundial de ATMs, que comparava os feitos da Papelaco, SIBS e Via Verde à saga marítima de Bartolomeu Dias e Vasco da Gama.

 

É possível que a generalização dos pagamentos por telemóvel, já comum em muitos países, venha a destronar a rede de máquinas ATM, do mesmo modo que a internet tornou obsoleta a rede Minitel, orgulho francês da década de 80, que já permitia reservar bilhetes de comboio ou escolher o lugar na sala de cinema. Porém, também é possível que as funcionalidades do Multibanco a que nos habituamos, venham a ser acessíveis nas novas plataformas. Do mesmo modo, a notícia da morte dos bancos e seguradoras pode ter sido exagerada, como a de Mark Twain. De acordo com a Investopedia, apesar de captarem elevados investimentos junto das sociedades de capital de risco, os novos atores independentes potenciados pelo Fintech são ainda insignificantes face a um setor bancário cuja capitalização bolsista é estimada em cerca de oito biliões de dólares, mais de 10 vezes o valor da Apple.

 

A inovação financeira decorrente do acesso a novas tecnologias é inevitável. No entanto, os bancos e companhias de seguros têm um grau de conhecimento, rede de clientes e capacidade financeira que deverão assegurar a sua sobrevivência. A IBM, para quem o mercado potencial de computadores estava limitado a cinco unidades, ou a Microsoft, que inicialmente considerou a internet irrelevante, souberam reinventar-se e criar valor num contexto muito diferente do da sua fundação. Os atores atuais do setor financeiro precisam de fazer o mesmo: o espectro da Fintech pode ainda ser uma oportunidade.

 

Dean da ISCTE Business School

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