Maria de Fátima Carioca
Maria de Fátima Carioca 29 de setembro de 2019 às 18:20

A política, tão perto e tão longe

O desafio político atual é saber ultrapassar as limitações do exercício da política e inovar em modelos de cidadania que reconstruam a confiança dinâmica que dá consistência ao diálogo democrático e sentido ao trabalho em conjunto.

Nas legislativas de outubro de 2015, a abstenção foi de 43,07%, o valor mais alto de sempre em eleições para a Assembleia da República. Na realidade, este número não foi novidade dado tratar-se de uma tendência que se vinha e vem, paulatinamente, agravando. Muitas são as análises que sobre este assunto se podem fazer, mas é um facto que, ao contrário da economia e do mundo dos negócios, a política afirma-se com um campo vedado à inovação, à transformação ou à disrupção. Mais ainda, enquanto as empresas, e a sociedade em geral, se preocupam em estudar e analisar as gerações mais novas (millennials e post-millennials), o que os cativa, os seus valores, atitudes e competências, na política assiste-se a uma deriva dos jovens face à realidade da política sem que, pelo menos aparentemente, nada aconteça.

 

Por isso é que de forma chocante, mas não surpreendente, estas gerações afirmam que a política não é um assunto que lhes suscite curiosidade, nem que lhes capte a atenção. Nos meios digitais de comunicação social, em que é possível padronizar com exatidão os consumidores, verifica-se isso mesmo: existe um número elevado de jovens que leem informação digital. Porém centram-se noutro tipo de temáticas que não a política. Ora, em termos de política e de modelos políticos, a falta de foco nestas gerações é preocupante e por duas razões principais.

 

Em primeiro lugar porque são muitos. A geração millennial, tipicamente agregando os nascidos entre 1981 e 1996, são a maior geração a nível mundial (cerca de 25% do total da população mundial): uma em cada quatro pessoas no mundo pertence a esta geração. Mesmo sabendo que em Portugal, e também na Europa Ocidental, não é este o padrão (18% e 19%, respetivamente), a verdade é que esta faixa etária representa perto de 25% dos eleitores do nosso país e, coincidentemente, trata-se do grupo etário em que a abstenção é maior.

 

Uma segunda razão, e talvez até mais relevante, é que o mundo mudou com os millennials e aos que não o são cabe mudar com o mundo. Cresceram juntamente com a evolução da internet e, por isso, são tecnologicamente curiosos e "savvy" e usam o digital em quase todos os aspetos da sua vida. Cresceram num mundo global e, por isso, o mundo é a sua casa. Cresceram num ambiente económico instável e de não-crescimento e, por isso, apresentam padrões de trabalho e de consumo próprios, menos apegados a contratos e favorecendo a realização pessoal. Com o perigo das generalizações, são reconhecidos como curiosos, digitais, transacionais, globais e ecológicos. Com exceção da curiosidade, tão humana e antiga quanto a própria humanidade, dificilmente os restantes adjetivos se aplicam à descrição das gerações que os precederam.

 

Esta diferença é simultaneamente a riqueza e a exigência que aporta esta geração. Riqueza e exigência que atravessam e se revelam em todos os ambientes de convivência humana, desde a família, às empresas e à sociedade em geral. As famílias adaptaram-se, as empresas integraram-nos e evoluíram. E em sociedade também. Na sua essência, enquanto "driver" e meio fundamental para construir a cidadania, a política está presente nesta geração como em todas as outras.

 

O fosso ou desinteresse ante a política é na realidade o descrédito, a desconfiança em relação a sistemas e modelos cristalizados. É sintoma de um movimento mais profundo: dissolução do conceito de que existem normas, instituições e modelos de governo referência-padrão de convergência a nível mundial. Também porque, hoje em dia, as relações internacionais se desenvolvem por canais muito distintos, incluindo novos polos de negócio cibernético, reconfiguração dos vínculos entre comércio e investimento, etc.

 

Assim, o desafio político atual é saber ultrapassar as limitações do exercício da política e inovar em modelos de cidadania que reconstruam a confiança dinâmica que dá consistência ao diálogo democrático e sentido ao trabalho em conjunto. A vida política autêntica renova-se com a convicção de que cada mulher, cada homem e cada geração encerram em si uma promessa que pode irradiar novas energias relacionais, intelectuais, culturais e espirituais. Uma tal confiança nunca é fácil de viver, porque as relações humanas são complexas. Mas a verdade é que é esta confiança, e só ela, que garante e anima a participação ativa, e tantas vezes apaixonada, de cada um no cuidado responsável e solidário pela vida de todos. Com este fio condutor, há que votar e, parafraseando Sophia de Mello Breyner, pondo nesse gesto solenidade e risco.

 

AESE

pub

Marketing Automation certified by E-GOI