Maria de Fátima Carioca
Maria de Fátima Carioca 03 de novembro de 2019 às 19:30

Web Summit prestes a começar

Poderia ser uma gigantesca cimeira virtual, mas a vivência do ambiente, das emoções, dos encontros, de momentos únicos é insubstituível e exige a presença física de cada um.

Mais uma edição do Web Summit prestes a começar! Um evento fascinante em muitos aspetos, entre os quais saliento, hoje, o facto de ser gigantesco, aparentemente paradoxal e um catalisador de ideias, tecnologia e negócios.

 

Em primeiro lugar, o Web Summit é fascinante pela sua dimensão. Qualquer que seja o indicador que se considere, os números disparam para os milhares, muitos milhares, milhões - de acordo com os dados de 2018, oradores (1.200), investidores (1.500), start-ups (1.800), jornalistas (2.600), visitantes (70.000), mensagens trocadas (180.000), cafés bebidos (363.846), palestras proferidas (554.000), quilómetros percorridos (935.604), investimento (11 milhões), impacto económico (estimado em 300 milhões). Estas grandezas traduzem, em si mesmas, a dimensão incontornável do evento.

 

Em segundo lugar, é fascinante ante um aparente paradoxo: sendo um evento centrado no digital expresso na tecnologia, nos negócios e na convivência, atrai a participação de muitos milhares de pessoas. Poderia ser uma gigantesca cimeira virtual, mas a vivência do ambiente, das emoções, dos encontros, de momentos únicos é insubstituível e exige a presença física de cada um. Ainda é diferente estar lá, participar no Summit e interagir, não virtualmente, com todas as outras pessoas.

 

O Web Summit impõe-se também como um forte dinamizador do encontro entre empreendedores e investidores, dando origem anualmente a um conjunto considerável de negócios, empresas e empregos. Naturalmente, para a maioria das ideias inovadoras lá presentes, este encontro é decisivo para o lançamento (ou não) do empreendimento. Contudo, é necessário distinguir a ideia, o pitch, até mesmo, a decisão do processo de empreender. O momento Web Summit nem por isso torna as ideias imunes a outros riscos com que habitualmente se deparam os empreendedores na concretização do negócio e afirmação no mercado, como sejam atingir uma massa crítica e crescer a um ritmo adequado.

 

Tomando como exemplo o modelo muito comum dos negócios suportados em plataformas digitais, estes parecem ser o modelo de negócio perfeito: facilitam transações entre fornecedores e clientes, não detêm nem se responsabilizam por produtos ou serviços, têm estruturas de custos muito baixos e margens brutas consideravelmente elevadas. No entanto, estes negócios continuam a ser extremamente difíceis de se afirmar, de ganhar uma massa crítica. Na maioria das situações é o típico problema do ovo e da galinha: para atingir uma massa crítica de clientes, necessita-se de uma massa crítica de fornecedores - mas para atrair fornecedores, são necessários clientes. Este é, desde logo, o primeiro desafio. Mas mesmo depois de atingido o volume crítico de atuação, o caminho está longe de ser tranquilo.

 

Neste tipo de negócios, quando atingido o ponto crítico, o chamado efeito de rede entra em ação e o crescimento dispara, seguindo uma trajetória exponencial. Este efeito cria, além disso, uma barreira à entrada de concorrentes. Como conclusão, muitos empreendedores assumem que precisam de alcançar a fase de crescimento exponencial o mais rapidamente possível. Porém, crescer rápido demais e/ou cedo demais pode ser contraproducente, por várias razões. Uma primeira razão é que o mercado necessita de tempo para que todas as partes percecionem o valor criado pelo negócio e a ele aderirem. Nesse entretanto, um grande crescimento pode deixar o negócio vulnerável à entrada posterior de concorrentes. Daí que, com alguma frequência, os que prevalecem não são os primeiros, mas os segundos que se estabelecem no mercado (Alibaba surgiu na China depois do eBay, Airbnb depois do VRBO, etc.). 

 

Por outro lado, é habitual que o modelo inicial inevitavelmente apresente falhas que necessitem de ser corrigidas. Ora o crescimento exponencial exerce uma grande pressão sobre o próprio modelo de negócios, ampliando o impacto das falhas e dificultando a sua correção. De facto, tentar mudar o modelo enquanto cresce muito rápido aumenta o risco de um colapso catastrófico. Assim, o crescimento prematuro pode realmente reduzir a probabilidade de atingir o ponto de inflexão que desencadeia o crescimento exponencial. Recordo o exemplo do Airbnb que demorou dois anos a encontrar a forma de pessoas comuns abrirem a sua casa a desconhecidos em condições e preços satisfatórios para todos. O modelo inicial de um colchão e pequeno-almoço não era entusiasmante para ninguém: nem para os viajantes, que preferiam umas condições um pouco melhores, nem para os donos das casas, que não estavam muito disponíveis a ter colchões espalhados pela casa.

 

A grande conclusão é que para tudo há um tempo e tudo necessita de tempo. Dito de outra forma, empreender exige características profundamente humanas como a ambição (criar, servir), mas também a prudência (arriscar no momento certo) e a resiliência. É um caminho que só conhecemos a caminhar e que pode ser emocionalmente muito duro. É um processo, não um mistério ou um fenómeno aleatório ou um momento pontual. Cada empreendimento pode ser um processo que alguma vez termina em nada ou até termina mal, outras vezes terminará bem. Mas o verdadeiramente importante é a atitude de empreender e que esta se transforme, ao longo da vida, na razão, na maneira pessoal de viver e de ser.

 

AESE

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