Indústria 4.0 - Sociedade 1.0

Falar sobre Indústria 4.0 a empresários poderá gerar algum burburinho na sala. Mas é possível que esta reação se deva apenas a alguma confusão sobre o tema ou de o encararem como mais uma moda.
Jornal de Negócios
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Ramon O’Callaghan 17 de julho de 2018 às 19:51

No entanto, o tema da Indústria 4.0 está a ganhar impulso e faz parte da transformação digital que está a acontecer e a mudar todos os aspetos da vida empresarial e vida social.

A digitalização cria novas oportunidades, eficiência e bem-estar. Mas, ao mesmo tempo, desafia a educação, o mercado de trabalho, e a inclusão social. O problema desta transformação é o ritmo a que as novas tecnologias ficam disponíveis é maior do que o ritmo a que pessoas, organizações e governos se estão a adaptar a estas mudanças. E é este gap entre a "tecnologia 4.0" e a sociedade 1.0" que necessita de uma agenda política abrangente, coerente e coordenada. Para os governos, o desafio é ter políticas que: explorem as oportunidades da digitalização, orientem os desenvolvimentos na direção desejada e mitiguem efeitos adversos.

As empresas vêm liderando o caminho na transformação digital, mas os governos percebem cada vez mais a importância de digitalizar seus serviços. Em muitos países, a digitalização do setor público esta a resultar em poupanças consideráveis. Em Portugal, um estudo recente elaborado  pelo Center of Business Innovation da Porto Business School para o MUDA - Movimento pela Utilização Digital Ativa estima que a digitalização dos serviços do Estado português pode resultar numa poupança de 400 milhões de euros por ano.

A digitalização pode poupar dinheiro e oferecer uma maior conveniência e velocidade na entrega. No entanto, 50% da população portuguesa não tem ainda as competências básicas digitais necessárias para funcionar, de forma efetiva, online (de acordo com o Relatório de Progresso Europeu Digital de 2017). Por isso, a agenda política da digitalização deve endereçar o tema das capacidades e competências.

A questão central é como esta nova aprendizagem e reorientação em relação a novos empregos pode ser efetivamente organizada. Não só a nível individual, mas também ao nível das empresas, associações empresariais e governo e como essa responsabilidade deve ser assumida. A educação e formação devem ser ágeis e responsivas ao impacto da digitalização e robotização. A Bosch, por exemplo, integra Indústria 4.0 em programas de formação existentes. O seu "Treino Ocupacional 4.0", em 2017, alcançou 1550 formandos que obtiveram insights sobre os sistemas de produção do futuro, usando workstations inteligentes que se ajustam aos níveis de capacidade do indivíduo.

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O impacto da digitalização será substancial para o emprego. Empregos, ou parte de funções, serão obsoletas ou serão desempenhadas por máquinas ou algoritmos. O futuro do trabalho não é apenas uma questão de quais os trabalhos que irão ou não sobreviver, mas é também uma questão de reorganização do trabalho. Não são os empregos que são substituídos pela automação: são algumas das tarefas dos empregos. Um estudo da McKinsey Global Institute, em 2017, concluiu: "As ocupações serão mais objeto de mudança do que automatizadas por completo." Um exemplo disso é a fábrica de "luzes desligadas" da Siemens, em Amberg, na Alemanha, que é automatizada até o ponto em que algumas linhas podem funcionar sem supervisão durante várias semanas. No entanto, esta fábrica tem 1.150 funcionários, com diferentes funções voltadas para programação, monitorização e manutenção de máquinas.

Contrariamente ao cenário apocalíptico percecionado, o futuro é sobre as pessoas: afinal, o valor das tecnologias reside no conhecimento que nós, humanos, incorporamos e como interagimos com elas. Precisamos de uma força de trabalho ágil e preparada para o futuro, pronta para abraçar um mundo orientado por dados, em parceria com a robótica e sistemas autónomos. Os governos, as empresas e o mundo académico têm a responsabilidade de preparar a força de trabalho atual e futura para as mudanças iminentes e radicais que estão por vir, e a sociedade precisa de aderir a esta nova revolução industrial.

Dean da Porto Business School

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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