Ramon O’Callaghan
Ramon O’Callaghan 17 de julho de 2019 às 09:30

A crise do Liberalismo

A tentação de rendição ao populismo é enorme. Alguns liberais clássicos estão tão furiosos com a oligarquia vigente nas organizações globais que aceitam fenómenos com o Trump ou o Brexit. Mas este é um caminho perigoso.

Numa entrevista ao Financial Times, no mês passado, Vladimir Putin afirmou, triunfante, que o Liberalismo está obsoleto. Desde o seu regresso à presidência da Rússia, em 2012, Putin tem procurado minar a ordem liberal ocidental. Assim, o seu comentário não constitui grande surpresa. Mas, por outro lado, tendo em conta o contexto dos assuntos mundiais, ele poderá ter alguma razão.

 

A democracia liberal, baseada no mercado, continua a ser o princípio organizador na maioria dos países com os mais altos padrões de vida. No entanto, entre os eleitores ocidentais há um desencantamento com o liberalismo. A crise financeira causou mossa no sistema económico e nas elites políticas e empresariais, catalisando a sensação de que muito se perdeu com a globalização e a imigração.

 

Inspirado pelas três grandes revoluções do final do século XVIII, o liberalismo começou como uma revolta contra o Antigo Regime, com suas fileiras hereditárias e privilégios fixos, e foi impulsionado pela crença na concorrência aberta e igualdade de oportunidades.

 

Mas, os liberais clássicos eram ambivalentes em relação à democracia. Preocupava-os o facto de que as massas não instruídas não conseguissem tomar decisões sensatas e por isso defendiam que os poderes de decisão deviam estar nas mãos de especialistas "desapaixonados". Esta foi a razão do aparecimento de uma elite tecnocrática. E, assim, o liberalismo tornou-se o oposto do que era, originalmente. O que começou como uma crítica dos antigos privilégios e estrutura de poder, foi substituído pelos privilégios e poder da nova elite de gestão tecnocrática.

 

A União Europeia é a elite mais poderosa, nos dias que correm. Os fundadores da Europa deliberadamente retiraram uma boa parte das decisões das mãos da população. Concentraram o poder de decisão nas mãos do Conselho Europeu e só após uma reflexão tardia e relutante criaram o Parlamento. As dificuldades recentes, após as eleições para o Parlamento da UE, de acordar candidatos para a presidência da Comissão Europeia e outros cargos de topo ilustram este dilema entre democracia e elitismo tecnocrático.

 

Um problema grave deste liberalismo de elite é que ele isola as elites tecnocratas da pressão da opinião pública, colocando-as numa confortável redoma em que todos pensam de forma semelhante e tomam decisões dissociadas da realidade das pessoas. Um exemplo disso é a insistência da UE de que a livre circulação de pessoas deve ser classificada como uma das "quatro liberdades" não negociáveis e que desempenhou um papel preponderante na persuasão dos britânicos para votar na saída da UE. A Grã-Bretanha, enquanto país de língua inglesa assente numa economia liberal, será sempre um destino escolhido pelos imigrantes. A livre circulação, mais do que qualquer outra coisa, alimentará o populismo europeu, no futuro, à medida que os imigrantes entram na Europa e circulam através de várias fronteiras. E, talvez por isso, algum controlo da liberdade de circulação poderá fazer muito mais do que qualquer outra coisa para garantir o futuro da UE.

 

As elites liberais precisam também de pensar mais seriamente em soluções locais para problemas económicos. Nas últimas quatro décadas, os liberais concentraram-se na globalização para produzir crescimento económico. Mas agora é necessário concentrar-se mais na forma como esse crescimento pode partir do local. Como podem os governos locais aproveitar ao máximo seus recursos? E como as forças globais podem ser usadas para ajudar seus cidadãos?

 

 Além de conter as elites todo-poderosas, o grande desafio do liberalismo é o de reavivar a tradição localista nacional. Enquanto for (apenas) sinónimo de globalização, o liberalismo estará destinado à decadência, pois desta forma os partidos populistas poderão reivindicar o monopólio da lealdade das comunidades

 

As elites liberais precisam de começar a defender o localismo com o mesmo vigor com que defenderam a globalização. Precisam de acabar com o hábito de diabolizar o nacionalismo como nada mais do que um pretexto para o racismo e a intolerância e o localismo como apenas mentalidade provinciana.

 

A maioria das pessoas vive as suas vidas ao nível local e nacional, e não em "lounges" de aeroportos internacionais. O populismo é tanto um protesto contra ser insultado quanto um protesto contra o crescimento económico estagnado.

 

O liberalismo moderno precisa de se relacionar com as vozes críticas, em vez de marginalizá-las de forma arrogante. Precisa de ouvir, simultaneamente, à esquerda e à direita. Da perspetiva da direita tradicional, precisa de aprender sobre a importância das instituições e da cultura. A partir perspetiva da direita populista, precisa de aprender a ver o "progresso" de baixo para cima - da perspetiva das fábricas fechadas em Manchester e Detroit, ao invés da perspetiva dos escritórios do FMI ou salões universitários. E da esquerda precisa de aprender sobre a importância da desigualdade estrutural.

 

Os liberais precisam certamente de fazer mais para ouvir a vontade do povo: a confusão do Brexit nunca teria acontecido se Bruxelas tivesse prestado mais atenção às vozes crescentes de descontentamento em toda a Europa e tivessem moderado suas ambições de acordo.

 

A tentação de rendição ao populismo é enorme. Alguns liberais clássicos estão tão furiosos com a oligarquia vigente nas organizações globais que aceitam fenómenos com o Trump ou o Brexit. Mas este é um caminho perigoso.

 

Cabe aos liberais preservar as proteções contra a insensatez das multidões, seja através das cartas de direitos, das segundas câmaras no Parlamento, tribunais independentes e outras barreiras contra as "ditaduras eleitas". Mas, ao mesmo tempo, cabe-lhe também reduzir a necessidade destes filtros de segurança, moderando as suas ambições (idealismos) e reagir de forma ágil perante o descontentamento das populações.

 

Estas não são tarefas fáceis ou triviais. Mas não são impossíveis. Renovar e revitalizar o liberalismo é o melhor caminho para expor a visão ilusória do mundo do Sr. Putin e de pessoas como ele.

 

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