Ramon O’Callaghan
Ramon O’Callaghan 13 de agosto de 2019 às 18:46

Férias de verão. Tempo para ficar offline e recarregar baterias

A expressão “detox digital” já faz parte da nossa linguagem e aplica-se precisamente ao período de tempo durante o qual uma pessoa se abstém de usar dispositivos como smartphones e computadores.

Estamos em agosto. Provavelmente, está de férias. Mas estará, de facto?

Se continua ligado à internet, reagindo aos e-mails e às redes sociais, operando num mundo onde a linha entre o digital e o real não é clara, não está realmente de férias.

 

Etimologicamente, "negócio" é o oposto do lazer - "ócio". Lazer é tempo livre, tempo para desligar e descansar. Mas parece que nos esquecemos de como descansar corretamente. E a grande causa disso é estarmos sempre online. Somos constantemente bombardeados com informações e o nosso cérebro e sistema nervoso nunca tem hipótese de desligar, realmente. Isto leva a níveis mais elevados de stress, esgotamento, desconforto e até problemas de saúde. Portanto, é extremamente benéfico ficar offline, não apenas por si, mas também pelo bem dos seus negócios, do seu trabalho. E sobretudo pela qualidade dos seus relacionamentos.

 

Parece que estamos viciados no digital. Um estudo levado a cabo no Reino Unido revela que os adultos passam uma média de 8 horas e 41 minutos por dia em ecrãs (mais tempo do que aquele em que estão a dormir). O utilizador médio passa, em média, 2 horas e 15 minutos por dia nas redes sociais e verifica o smartphone a cada 12 minutos. Dois em cada cinco adultos (40%) verificam o telefone nos primeiros cinco minutos após acordar (sendo que 65% destes têm menos de 35 anos).

 

A expressão "detox digital" já faz parte da nossa linguagem e aplica-se precisamente ao período de tempo durante o qual uma pessoa se abstém de usar dispositivos como smartphones e computadores. É uma oportunidade para reduzir o stress, focar mais na interação social e relacionar-se com a natureza no mundo físico. E que melhor momento para "desintoxicar digitalmente" senão durante as suas férias?

 

A interação constante com dispositivos digitais no local de trabalho é apresentada como a causa principal para o aumento dos níveis de stress e para a redução da produtividade. Um artigo da Harvard Business Review (junho, 2016) afirma que a resiliência - a capacidade de recuperar - é sobre como se recarrega, não sobre se resiste. O mesmo artigo afirma que a própria falta de um período de recuperação está a atrasar dramaticamente a nossa capacidade coletiva de ser resiliente e bem-sucedido. Através da investigação descobriu-se que existe uma correlação direta entre a falta de recuperação e o aumento da incidência de problemas de saúde e segurança.

 

Estas descobertas são ecoadas no trabalho de José Soares, professor catedrático de Fisiologia da Universidade do Porto e professor da Porto Business School. No seu livro mais recente, "Reload", José Soares explica os sintomas do stress, como influenciam negativamente a performance no trabalho e na vida pessoal, e abre caminhos para o profissional encontrar o ponto de equilíbrio. José Soares sublinha que está a falar de conhecimentos científicos da área da fisiologia aplicados ao mundo das organizações empresariais, e defende, no seu livro, um método de combate ao stress assente em quatro pilares ou quatro "R": "Recover", "Refuel", "Rethink" e "Reenergize". A recuperação ("recover") é o primeiro passo. José Soares aponta o sono como um aspeto essencial para recuperar do stress e fadiga crónica. Reabastecer ("refuel") é a segunda etapa do caminho. Por último, sublinha a relevância de reenergizar ("reenergize"), de fazer exercício com o objetivo de estimular e melhorar as funções cognitivas.

 

Relativamente ao "detox digital", a questão é como começar? Um bom conselho é fazer um "social media fast" ("fast"=jejum, em português). Não há como evitar ser viciado no telemóvel. Todo ele é desenhado para o manter viciado, criando constantes injeções de dopamina com notificações e informações. Por isso, a única coisa que funciona, para algumas pessoas, é tratar o problema como um vício e cortar repentina e completamente, ao invés de reduzir a utilização, gradualmente. As pessoas que fazem isto relatam que os primeiros dias são muito desagradáveis, tal como acontece em qualquer outro processo de desintoxicação. Procuramos o telefone várias vezes por dia e começamos a perceber com que frequência o fazemos apenas para nos distrairmos. Para combater esse hábito, precisamos de nos concentrar no que está bem à nossa frente; as pessoas, a natureza, o que quer que esteja a acontecer. E então, como que por magia, após alguns dias, dará por si a pensar "Como pareciam o Facebook ou o Instagram tão fascinantes?" Parecer-lhe-á realmente estranho ficar a olhar para um telefone em vez de apreciar a vista quando está num sítio bonito.

 

É também importante largar as notícias. Há tanta coisa a acontecer no mundo que nos leva a ser constantemente bombardeados com notícias, geralmente não muito felizes. Desligue-se por algumas semanas. O mundo vai continuar no mesmo sítio, quando regressar. Deixe o seu sistema nervoso relaxar ao não ter de processar informação o tempo todo, e descontraia, apenas. Desta forma, conseguirá relaxar muito mais profundamente.

 

Devemos reconhecer, no entanto, que demora tempo para abrandar e relaxar. Quando estancamos a corrente online de informação, geralmente demoramos alguns dias para desligar de todos os dados e relaxar num espaço mais lento e menos preenchido. O nosso corpo precisa de se desintoxicar do cortisol e da dopamina. Durante os meus primeiros dias de férias, eu próprio sinto-me a correr, como uma barata tonta, por estar ainda no ritmo antes de férias. Mas depois fico sem fôlego e, de repente, dou por mim a pensar "como me esqueci de que existe outra vida lá fora?"

 

Temos de nos assegurar de que a nossa vida real é muito mais emocionante do que o que acontece online. Isso pode parecer simples, mas nem sempre é assim. É preciso consciencialização para criar a rutura necessária. E ajuda imenso se se rodear de pessoas que partilham o mesmo objetivo e não estão constantemente com o seu telefone. Além disso, é mais divertido, pois podem usar diferentes partes do cérebro, brincar e divertirem-se uns com os outros, sem outras distrações.

 

Os dias quentes de verão são perfeitos para reduzir o stress e recarregar o cérebro com energia (parafraseando José Soares, para fazer "reload"), passando tempo com a família e amigos, na praia ou no campo, viajando para novos lugares e desfrutando da natureza que nos rodeia.

 

Assim, divirta-se e aprecie o verão. Recarregue as suas baterias (e não do seu telemóvel). E tenha umas ótimas férias!

 

Porto Business School

 

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