Ramon O’Callaghan
Ramon O’Callaghan 03 de dezembro de 2019 às 19:20

O futuro do trabalho e as escolas de negócios

O papel dos académicos, enquanto criadores de conteúdo especializado, vai acabar por diminuir, mas o seu papel enquanto mentores, orientadores e professores vai aumentar.

Já quase todas as consultoras ou "think-tanks" de referência elaboraram um relatório sobre o futuro do trabalho, incluindo-se, neste grupo, a McKinsey, Bain & Company, BCG, Deloitte, PwC, a OCDE e o World Economic Forum. Estes relatórios indicam que a crescente capacidade da inteligência artificial e da automação vai transformar algumas indústrias, criar novas e eliminar outras. Indicam também que vai existir um menor número de trabalhadores qualificados e os trabalhadores do setor dos serviços terão remunerações mais baixas. A maior parte das análises do negócio, das finanças ao marketing, vai ser realizada de forma mais precisa, e por um custo menor, através de um algoritmo. As empresas de sucesso não vão ser avaliadas pelo número de trabalhadores, mas pela quantidade de dados que agregam e pela precisão dos seus algoritmos.

 

Mas apesar de as máquinas conseguirem realizar um grande número de tarefas, ainda lhes falta uma característica muito própria da condição humana: a competência social. A interação humana requer uma competência que os psicólogos chamam de "teoria da mente" - a capacidade de atribuir estados mentais a outros baseando-se no seu comportamento - ou, de forma mais simples, "colocarmo-nos no lugar do outro". Os estudos demonstram que tarefas que requerem uma grande capacidade de interação social cresceram muito mais do que outras, e as únicas tarefas que registaram um crescimento consistente, desde 2000, requerem ambas, cognitivas e sociais. Assim, tal como as máquinas continuam a realizar de forma automática cada vez mais tarefas, também características como a cooperação, a empatia e a flexibilidade estão a tornar-se cada vez mais críticas para o futuro.

 

Mas estará o nosso sistema de ensino preparado para isso? A componente social raramente é trabalhada no sistema educativo tradicional. Para preparar os alunos para o futuro do trabalho é fundamental que as competências trabalhadas em sala de aula sejam adaptadas.

 

David Deming, académico de Harvard, estabelece um paralelismo entre o local de trabalho e uma sala do pré-escolar, onde as crianças vão alternando entre projetos de arte, experiências científicas e espaço de recreio em pequenos grupos, onde as competências mais importantes são a partilha e a negociação. Mas isso rapidamente termina, e é substituído por uma aula tradicional de passagem de conhecimento teórico, com muito menos interação entre colegas. Atualmente, também o trabalho nas empresas se tem tornado mais parecido com a pré-escola. Tarefas que requerem uma maior componente de socialização e conhecimento, nomeadamente a matemática, têm taxas de empregabilidade e remuneração mais elevadas. Trabalhos que exigem competências sociais, mas não conhecimentos matemáticos, também cresceram. E os empregos que estão rapidamente a desaparecer são aqueles que não exigem nem uma nem outra, tal como o trabalho manual. 

 

Quais são então as implicações para a educação executiva? Aquilo que as escolas de negócio ensinam, como o ensinam e a quem o ensinam terá de mudar. Quer os indivíduos quer os membros de uma equipa dentro de uma organização precisam de estar preparados para se adaptarem com sucesso a ambientes de negócio em constante mudança. Para prosperar neste contexto volátil, as escolas de negócio têm de ser mais ágeis e adaptar as suas práticas nas seguintes áreas:

 

1 - Oferecer formação "just in time" de forma a irem ao encontro das necessidades imediatas, ou seja, módulos curtos e "up to date" naquilo que é inovador, relevante e no que ainda está para vir ("what’s next").

 

2 - Alargar a rede de pessoas de forma a incluir aqueles que querem continuar a aprender para se manterem no mercado (ou seja, "lifelong learners") e, por outro lado, as organizações terão de qualificar com novas competências os colaboradores para se ajustarem às novas tecnologias e novas tendências sociais

 

3 - Focar-se em áreas que vão ser menos impactadas pela inteligência artificial, por exemplo, liderança, ética, comunicação, recursos humanos e impacto social entre outros.

 

4 - Utilizar diferentes tecnologias para entregar experiências de aprendizagem eficazes e motivadoras, quer seja através de plataformas de inteligência artificial, ou via mobile.

 

A especialização académica em áreas em que as máquinas superam os humanos vão tornar-se cada vez menos importantes. Novos temas e desafios críticos para o sucesso empresarial vão surgir de forma mais rápida do que o ritmo a que a academia vai criar e disseminar conhecimento, daí que os professores nestas áreas podem passar a ser não os tradicionais académicos, mas sim os especialistas de cada indústria. O papel dos académicos, enquanto criadores de conteúdo especializado, vai acabar por diminuir, mas o seu papel enquanto mentores, orientadores e professores vai aumentar.

 

As escolas de negócio têm de ver além de "alunos" e "alumni". Têm, sim, de vê-los como "lifelong learners" (aprendizes durante toda a vida). Assim, para se manterem competitivas, as escolas e as empresas podem ter de passar a dispor de um serviço de acompanhamento de carreira, desde a graduação até à reforma, bem como disponibilizar oportunidades para uma aprendizagem contínua, pré e após licenciatura. Uma vez que a produção de conhecimento é cada vez mais rápida e mais disseminada, os alunos esperam que a sua escola lhes disponibilize conhecimentos relevantes que vão utilizar ao longo da sua vida profissional.

 

A desigualdade económica vai piorar, tornando-se rapidamente não só num problema económico, mas também num problema social. As escolas de negócio têm de começar a perguntar-se a si próprias que tipo de conhecimento vão disponibilizar para prepararem os alunos para conseguirem lidar com um cenário de extrema desigualdade salarial e instabilidade social. Vão, portanto, ser cada vez mais valorizados os programas nas áreas de empreendedorismo social e ética e as "soft skills" de comunicação, negociação e influência.

 

As escolas de negócio podem assumir um papel crucial num mundo de automação e inteligência artificial. Mas terão, sobretudo, de se adaptar e responder às novas formas de fazer negócio: têm, essencialmente, de conseguir dar resposta às repercussões sociais que estas novas abordagens vão trazer. Para fazerem este caminho podem começar por aumentar a sua oferta formativa, alargar a base de alunos e expandir serviços de apoio à carreira assim como serem proficientes na utilização das novas tecnologias na entrega do conhecimento.

 

As escolas de negócios podem continuar a desempenhar um papel relevante no futuro, quando a inteligência artificial e a automação se tornarem predominantes. Ainda não sabemos a fórmula exata, mas certamente podemos dizer que ela terá de girar em torno e valorizar a condição humana. 

 

Porto Business School

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