Ramon O’Callaghan
Ramon O’Callaghan 09 de outubro de 2019 às 09:40

O futuro do trabalho no mundo digital: mudanças à vista, mas não tanto...

A OCDE estima que são menos de 10% os trabalhadores que estão em risco de serem substituídos pelas máquinas, e que apenas 25% estão em funções onde uma grande parte das suas tarefas pode ser automatizada.

Já todos ouvimos isto. Os avanços contínuos na robótica, inteligência artificial e "machine learning" estão a inaugurar uma nova era de automação, à medida que as máquinas se equiparam ou superam o desempenho humano numa série de atividades laborais. Toda a publicidade e exaltação nas notícias sobre estes desenvolvimentos pode levar-nos a acreditar que a maioria das profissões está na iminência de serem extintas e que em breve todos ficaremos sem trabalho. Mas, calma. A realidade é um pouco diferente.

 

A OCDE estima que são menos de 10% os trabalhadores que estão em risco de serem substituídos pelas máquinas, e que apenas 25% estão em funções onde uma grande parte das suas tarefas pode ser automatizada. Igualmente, um estudo abrangente da McKinsey Global Institute conclui que apenas uma percentagem reduzida de funções pode ser totalmente substituída pela adaptação da tecnologia, e que apenas algumas atividades de todas as funções podem ser automatizadas.

 

Considero este estudo digno de nota, pela profundidade e amplitude da análise. Ao contrário de outros estudos, o núcleo da análise da McKinsey está mais focado nas atividades e menos na totalidade das profissões. O estudo avaliou a automação potencial de mais de 2.000 atividades em mais de 800 profissões nos Estados Unidos. Ao analisar todas estas atividades conseguiram estimar o potencial de automação das profissões em vários setores da economia. Ao trabalhar em conjunto com os especialistas da indústria, a McKinsey desenvolveu cenários para avaliar a rapidez com que as tecnologias de automação podem melhorar cada uma destas competências. E esta análise forneceu-lhes um modelo que lhes permitiu estimar o potencial de automação e os vários cenários de tempos de adoção para 45 países, que representam 80% da força global de trabalho. Em suma, o estudo da McKinsey avaliou o potencial de automação da economia global, os fatores que vão determinar o ritmo e a extensão da sua adoção no local de trabalho e o impacto económico associado ao seu potencial. Uma proeza nada fácil.

 

O estudo concluiu que cerca de metade das atividades de trabalho realizadas por pessoas, na economia global, têm o potencial de serem automatizadas, adaptando a tecnologia atualmente disponível e isso pode aumentar o crescimento da produtividade globalmente de 0,8 a 1,4% ao ano. Curiosamente, a McKinsey ressalta que, embora menos de 5% de todas as funções possam ser totalmente automatizadas, cerca de 60% de todas as funções têm pelo menos 30% de atividades que poderiam ser automatizadas. A conclusão? Serão mais as ocupações que mudarão do que serão automatizadas.

 

Os cenários sugerem que metade das atividades de trabalho de hoje só poderá ser automatizada até 2055. Isto pode acontecer até 20 anos antes ou depois, dependendo de vários fatores técnicos, económicos e sociais.

 

A análise da McKinsey vem também evidenciar que o Homem vai continuar a ser mão de obra necessária: o expoente máximo da produtividade só vai ser atingido se máquinas e humanos trabalharem em conjunto. Isso irá, de facto, alterar o local de trabalho, obrigando a um nível de cooperação mais exigente entre trabalhadores e tecnologia. Ao trabalharem com novas tecnologias, os trabalhadores vão ter de estar preparados para desempenhar tarefas mais complexas, menos mecânicas, tais como a resolução de problemas em novas situações. E isto requer uma forte literacia, numeracia e competências de resolução de problemas mas, em simultâneo, autonomia, competências de coordenação e colaboração que vão complementar as competências em TIC.

 

Garantir que todas as pessoas têm as competências certas e alinhadas com um mundo cada vez mais digital e globalizado é essencial para promover mercados de trabalho inclusivos e estimular a inovação, produtividade e crescimento. A OCDE, no report "Competências para um Mundo Digital", incentiva os governos a tomarem medidas para assegurar que um mundo cada vez mais digital obriga a empregos de melhor qualidade e que quer as organizações quer os trabalhadores têm forma e meios para tirar partido destas novas oportunidades de emprego que surgem. Será também fundamental trabalhar as competências que se encontram desfasadas da realidade, garantindo que as organizações colocam, de facto, em prática, as competências dos trabalhadores através de políticas internas que os motivem e através de uma flexibilização do trabalho que possibilite que a sua função seja adaptada ou que permita que os colaboradores possam ser alocados a diferentes funções. Esta combinação de medidas vai permitir aos colaboradores ter as suas competências atualizadas, vai ajudá-los a transitar entre empregos e assegurar que as organizações têm uma força de trabalho altamente produtiva e inovadora.

 

Ao analisar o impacto que as tecnologias podem ter na sociedade, os especialistas tendem a sobrestimar os efeitos no curto prazo e subestimar os efeitos a longo termo. O âmbito e os efeitos de longo prazo da automação são potencialmente massivos, mas a rapidez com que a mudança acontece pode não ser tão rápida como somos levados a crer. Será uma evolução, não uma revolução. Pela sua dimensão, as mudanças na força laboral podem demorar décadas a acontecer.

 

Isto não é algo sem precedentes. Alguns investigadores afirmam que a transição será de uma ordem de magnitude semelhante às mudanças de longo prazo possibilitadas pela tecnologia na agricultura no século XX. Essas mudanças não resultaram em desemprego em massa, a longo prazo, porque foram acompanhadas pela criação de novos tipos de trabalhos.

 

Enquanto muita da discussão sobre a automação está focada no potencial desemprego em massa, a verdade é que nós, enquanto pessoas, vamos continuar a necessitar de trabalhar par a par com as máquinas. O desafio será o de desenvolver as novas competências necessárias para uma maior cooperação entre nós, as novas tecnologias e as máquinas. Preparar o futuro do trabalho para o mundo digital de manhã é o maior desafio para o qual todos nós - educadores, empresas, empregados e políticos - devemos estar preparados. 

 

Porto Business School

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