Sofia Salgado Pinto
Sofia Salgado Pinto 19 de maio de 2019 às 18:00

Como avaliamos o "fair play" das empresas?

Deveríamos querer saber mais sobre a cultura das empresas, dos comportamentos e atitudes que as caracterizam e que é manifestado pelos seus líderes. Deveríamos estar atentos à consistência do que é comunicado para o exterior e querer saber mais sobre a estratégia e a sua execução.

Na generalidade das empresas, os primeiros meses do ano são muito ocupados com o fecho de contas, com as auditorias e com a preparação da informação a comunicar aos "stakeholders". O que varia entre empresas tem que ver com a natureza pública ou privada, com o facto de estar cotada em bolsa ou não, ter ou não fins lucrativos, distribuir dividendos, etc. No fundo, a natureza jurídica, a dimensão e o contexto competitivo da empresa determinam a forma e o detalhe da informação a publicar ou partilhar.

 

Estas obrigações legais e estatutárias tendem a pressionar uma orientação para os resultados e um foco no curto prazo. Ao mesmo tempo, sabemos que as contas, por si só, são limitadas na informação que dão sobre a sustentabilidade da empresa e sobre o valor social que esta cria ou partilha. A informação contabilística e financeira da empresa deve traduzir o valor económico e financeiro criado, mas é limitado no que informa sobre a sua sustentabilidade. Se assim não fosse, conseguiríamos antever as empresas que iam falir ou estar em situação financeira delicada após alguns anos. Isso, em muitas situações, só é possível quando se está na posse de informação dita privilegiada, isto é, que não é partilhada ou partilhável. E assumo que não é partilhada por ser estratégica e a sua divulgação, potencialmente, comprometer a posição competitiva da empresa e não por qualquer outra razão não virtuosa.

 

Então o que é que nos dá informação sobre outras dimensões do valor criado pelas empresas? O que deveríamos querer saber das empresas que nos indicasse que o médio e o longo prazo estavam salvaguardados, que nos mostrasse que, para além dos resultados adequados, estava a acontecer investimento? Mais, o que deveríamos conseguir saber sobre as boas práticas de gestão das empresas e sobre os seus processos? Estamos cansados de gestores estrela que aparecem associados a empresas "vencedoras" e que, depois, se transformam em arguidos de processos judiciais. Precisamos de perceber onde devem as empresas colocar o seu foco e o que querem saber os verdadeiros investidores que cuidam o seu capital como capital social.

 

Recentemente, li um artigo do Professor Ludo Van der Heyden, do INSEAD que se debruça sobre a implementação de práticas e de processos justos que garantam um sentido de justiça nos vários níveis de uma organização(1). O artigo não é novo, mas despertou-me para uma perspetiva diferente da responsabilidade das equipas de gestão e dos conselhos de administração das empresas. O artigo foi publicado a propósito de "compliance" nos sistemas de governo das empresas ("corporate governance"). De acordo com Van der Heyden, as práticas de negócio são justas se forem melhores para o negócio, para as pessoas envolvidas (incluindo os acionistas) e para o ambiente social e físico onde se inserem. Acrescenta que, também nos negócios, o "fair play" (a prática ou o processo justo) se traduz pela consistência de atuação, pela transparência, pela comunicação adequada que dá voz a todos, pela capacidade de alterar a atuação em função de nova informação e por uma cultura de compromisso profundo pela coisa justa (e não só superficialmente). Estas características são cumulativas e, quando se verificam, estão associadas a empresas de bom desempenho, que criam valor de forma mais sustentável e que geram confiança nas suas práticas de negócio. Logo, são atrativas, potenciam a captação de investimento e de competências. Entendo aqui o "fair play" com um âmbito distinto do "fair play" financeiro usado no contexto do futebol.

 

Então, deveríamos querer saber mais sobre a cultura das empresas, dos comportamentos e atitudes que as caracterizam e que é manifestado pelos seus líderes. Deveríamos estar atentos à consistência do que é comunicado para o exterior e querer saber mais sobre a estratégia e a sua execução.

 

Temos parte desta informação disponível para as empresas cotadas, mas quase nada para a generalidade das restantes que compõem o tecido empresarial português. Sabemos que muitas empresas são pequenas ou micro, com reduzida ou nenhuma estrutura. Mas quando crescem, que cuidados deveriam ter para garantir o "fair play"?  

 

 

(1)Van Der Heyden, Ludo (2013), "Setting a tone of fairness at the top", Business Compliance. Battzer science publishers

 

Católica Porto Business School

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