Manuel Gonçalves
Manuel Gonçalves 14 de maio de 2017 às 17:01

A inevitabilidade da "blockchain"

Um sistema financeiro assente na tecnologia "blockchain" reduziria drasticamente o poder de intermediação monetária que as instituições financeiras detêm e aumentaria a eficiência com que estas o exercem.

Com o desenvolvimento de tecnologias cada vez mais sofisticadas no ramo financeiro, deparamo-nos com a inevitabilidade de questionar a eficiência com que as instituições financeiras operam e, ainda mais importante, com a possibilidade de reinventar este sistema, originando uma nova era de confiança e legitimidade. Qual a probabilidade de acontecer um avanço tecnológico tão poderoso que seria capaz de abanar os pilares fundamentais da sociedade em que vivemos? Muitos acreditam que este já aconteceu, a grande questão é como o iremos abraçar.

 

Em Outubro de 2008, Satoshi Nakamoto apresentava ao mundo a primeira moeda totalmente virtual e descentralizada: a bitcoin. Desenvolvida com princípios matemáticos e criptográficos complexos, a grande inovação reside na tecnologia subjacente a esta "cryptocurrency", uma rede de dados distribuída por todos os utilizadores, onde se recordam todas as transações feitas até à data em "blocos" impossíveis de adulterar. Transparência e identidade imútavel conferem à "blockchain" a inigualável capacidade de assegurar a confiança na cooperação entre duas partes.

 

Um sistema financeiro assente na tecnologia "blockchain" reduziria drasticamente o poder de intermediação monetária que as instituições financeiras detêm e aumentaria a eficiência com que estas o exercem. Em transferências internacionais, como remessas enviadas por emigrantes para o seu país de origem, a poupança em comissões cobradas pode ascender a 90% e, ao evitar o envolvimento de diversas moedas e bancos no processo, a transação poderá ser executada em minutos.

 

As suas aplicações estendem-se, por outro lado, ao mercado de capitais. Em Portugal, uma iniciativa a cargo da Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios (APFIPP) visa reduzir os custos operacionais associados à distribuição de fundos, nomeadamente através de uma plataforma que permite a subscrição, resgate e reporte à entidade reguladora, tornando todo o processo mais eficiente, menos oneroso e evitando a elevada dependência de um "back office" para reconciliação de informação. Esta automatização libertará recursos assegurando, ao mesmo tempo, um controlo efetivo do mercado.

 

Estes desenvolvimentos podem ser extrapolados universalmente para qualquer transação de activos que, por norma, exige o envolvimento de várias contrapartes. O NASDAQ, bolsa de valores americana onde estão cotadas as maiores empresas tecnológicas do mundo, tem vindo a desenvolver iniciativas que exploram a total implementação da "blockchain" no sistema de transações de títulos, identificando a sua capacidade de reduzir erros de registo e de fraude e beneficiando largamente os investidores. A existência da própria bolsa de valores poderá ficar em risco com a descentralização das transações uma vez que, no futuro, esta poderá já não ser imprescindível na conjugação da oferta com a procura.

 

Serão as entidades incumbentes capazes de restaurar os seus princípios e acolher a restruturação de uma parte fundamental da economia? Em qualquer desenvolvimento tecnológico, a preparação para a mudança consegue-se com pesquisa e experimentação, não devendo esta ser vista como um obstáculo. Aqueles que o fizerem serão os mais bem posicionados para a evolução que se avizinha.

 

Membro do Nova Investment Club

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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