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Avelino de Jesus 22 de Dezembro de 2014 às 00:01

20 anos de investimento no empobrecimento relativo

Nos últimos 20 anos o PIB português cresceu, em média, menos que o da União Europeia, acentuando-se essa diferença na última década.

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Alguns querem iniciar mais uma fase das mesmas políticas económicas dos últimos 20 anos, procurando extrair da União Europeia mais um ciclo de extravagâncias, parecendo pretender tornar o país num eterno assistido.

 

Neste contexto, a reflexão sobre a questão do investimento assume grande relevância.

 

A probabilidade de se entrar numa nova fase de ilusões é muito grande: o investimento tornou-se a palavra mágica.

 

A economia portuguesa não está, há tanto tempo, em divergência por falta de investimento mas devido a mau investimento, provocado por más decisões públicas e por incentivos e constrangimentos errados enviados às empresas e às famílias.

 

O investimento não foi insuficiente

 

Em Portugal, o investimento anual médio em percentagem do PIB decaiu de 23,6% na década 1993/2003 para 20,5% na década de 2003/2013. A quebra foi ligeira. No caso da UE15 os valores são 21,0% em 1993/2003 e 20,8% em 2003/2013. Considerando o conjunto das duas décadas (1993/2013) este indicador foi até superior em Portugal: 22,0%, contra 20,9% em média na União Europeia.

 

O investimento médio anual a preços constantes constantes de 2010 caiu, entre as duas décadas, apenas ligeiramente (1%), passando de 36,5 mil milões de euros em 1993/2003 para 36,1 mil milões de euros em 2003/2013.

 

A chave para compreender o empobrecimento relativo no país não está, portanto,  na escassez de investimento. Ela pode encontrar-se seguindo as pistas do quadro anexo, partindo da observação da evolução da produtividade do trabalho e dos factores que a determinam.

 

 

 

  

 

investimento foi errado

 

O investimento dirigiu-se a actividades demasiado trabalho-intensivas que propiciam a manutenção de baixas produtividades do trabalho. A colocação em evidência - por razões políticas irresponsáveis e por falsas preocupações sociais - do objectivo de aumento do emprego, em lugar de objectivos da eficiência económica, prolongou e agravou a situação de pobreza relativa do país.

 

A produtividade do trabalho (valor acrescentado por trabalhador) é inaceitavelmente baixa e pouco evoluiu em 20 anos. Neste período, a produtividade do trabalho em Portugal andou à volta de metade da registada na União Europeia:  passou de 51,3% em 1993 para  55,1%  em 2013. Em vinte anos houve um ganho de meros 4 pontos percentuais

 

A causa fundamental desta baixa produtividade - tema notavelmente ausente do discurso político - reside na baixa quantidade de meios de produção (capital) colocada, em média, à disposição de cada trabalhador e num factor residual dificilmente apreensível directamente mas que nós, os economista, resumimos com o jargão de "produtividade total dos factores". Este último factor (onde colocamos, entre outros elementos, a formação da força de trabalho), também teve, ao contrário do que seria de esperar, um papel negativo.

 

O sistema educativo  foi desenvolvida sem ligação ao aparelho produtivo, levando a que as notáveis melhorias educativas das últimas décadas não tenham resultado na melhoria relativa da produtividade total dos factores. Pelo contrário, esta, embora tenha melhorado entre nós, evoluiu, menos que entre os  nossos parceiros. A produtividade total dos factores cresceu 0,6% em média anual na UE15, contra 0,4% em Portugal.

 

Por sua vez, o rácio capital/ trabalho em Portugal, relativamente ao da média da União Europeia, passou de 42,2% em 1993 para  57,1% em 2013 - uma recuperação de 15 pontos percentuais em 20 anos.

 

Com este ritmo não há convergência previsível. É assim que continuaremos a evoluir  se se continuarem a fazer maus investimentos (insuficientemente capital intensivos e não baseados em procura autónoma sustentada, isto é, não empolada artificialmente pelo Estado) e se o aparelho educativo continuar entregue a si próprio sem adequação às exigências do mundo empresarial.

 

Quererão as principais forças políticas enfrentar esta realidade de frente? Ou preferirão preparar mais 20 anos de empobrecimento relativo do país?

 

Economista e professor do ISEG

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