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2006: Frágeis fundamentos

Ano novo, vida nova», reza o ditado. No caso de 2006, e em termos económicos globais, bem se pode dizer «Ano novo... vida pior?».

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Na verdade, dificilmente a economia mundial registará, em 2006, o crescimento superior a 4.5% de 2004 e 2005. E, no entanto, apesar deste período recente de forte crescimento, nunca registado em dois anos consecutivos desde 1970, raramente o mundo se apresentou tão frágil em termos económicos.

Desde logo, o preço do barril de petróleo continua a níveis reais que mais do que dobram os valores médios desde os anos 80 e as taxas de juro, quer de curto prazo, quer de longo prazo, mantêm-se, em geral, a níveis historicamente baixos.

Ao mesmo tempo, a poupança nos EUA encontra-se a níveis mínimos de sempre, e os défices externo e público - os chamados «défices gémeos» - com registos bem altos. Para mais, o mercado imobiliário ampliou, em 2005, o «boom» que já vinha sendo registado em anos anteriores (ver figura) - o mesmo sucedendo, também, aliás, num número invulgarmente elevado de países, de que se destacam o Reino Unido, a França, a Espanha, a Itália, a Austrália, a Nova Zelândia, a Bélgica, a Suécia, a Dinamarca, ou a Irlanda, por exemplo. Assim, o valor dos activos imobiliários a nível global elevou-se de tal forma que pode ser considerado a maior bolha especulativa da história. Como é bom de ver, uma economia mundial que assenta neste tipo de desequilíbrios torna-se extremamente vulnerável a quaisquer tipos de acontecimentos imprevistos.

Tome-se a evolução recente do barril de petróleo, por exemplo. Com a procura de petróleo a continuar forte - o dinamismo que se continua a antever para os gigantes asiáticos China e Índia, apesar do ligeiro abrandamento previsto, muito para isso tem contribuído -, e a capacidade de produção e de refinação a não dar mostras de acompanhar esta tendência, os preços poderão continuar elevados em 2006. Ora, relativamente ao final de 2001, o preço médio do petróleo em 2005 mais do que triplicou (ver figura), uma escalada que só encontra paralelo nos choques de 1973-74, 1978-80 e 1989-90 - períodos a seguir aos quais sempre se seguiu uma recessão global. Até agora, tal ainda não sucedeu porque a subida do preço do petróleo tem sido compensada pelas já referidas baixas taxas de juro em muitos países, com benefício para o mercado imobiliário (isto é, para a «bolha» imobiliária) e para o consumo das famílias. O exemplo norte-americano é elucidativo desta realidade. Em 2005, estima-se que a conta petrolífera dos EUA tenha aumentado cerca de USD 120 mil milhões; no entanto, o que é isso, comparado com a subida de USD 2.5 biliões no valor do mercado habitacional?! Desde 2001, de acordo com a revista «The Economist», cerca de metade dos empregos criados no sector privado norte-americano estão relacionados com o mercado imobiliário, e uma larga fatia do consumo das famílias foi financiada por empréstimos contra ganhos neste mercado. Obviamente, se os preços do imobiliário começarem a cair, ou até mesmo se deixarem apenas de se valorizar, estaremos em presença de um enorme problema. E se acontecer uma nova escalada dos preços do crude, então a confiança poderá ser ainda mais abalada, com reflexos muito penalizadores sobre a economia real.

A realidade global de hoje, em que predominam baixas taxas de juro (nos EUA, mesmo com as recentes subidas, a taxa de referência Fed Funds continua ainda bem mais baixa do que a média dos últimos 20 anos, por exemplo), e temos altos preços do petróleo e do imobiliário, diverge da dos anos 70 (quando a inflação disparou), para o que muito contribuiu a progressiva entrada da numerosa força de trabalho chinesa na economia mundial, que tem ajudado a controlar a evolução dos salários. Mas, mesmo assim, a inflação tem vindo, em geral, a aumentar - logo, se a bolha imobiliária rebenta e o consumo das famílias se retrai, os bancos centrais poderão não ter grande espaço de manobra para agir como em 2001-2002, quando, depois da bolha especulativa nos mercados accionistas ter eclodido, a descida agressiva das taxas de juro ajudou a prevenir uma recessão. Só que, na altura, a inflação estava em queda, e hoje... não está. E para tornar as coisas ainda piores, não é só nos EUA que se regista um grande défice das contas públicas (quem não se lembra dos problemas de Alemanha, França e Itália, por exemplo, relativamente ao Pacto de Estabilidade?) - pelo que a capacidade de estimular a economia pela via fiscal parece ser pequena.

Chegados a este ponto, pergunta-se: e factores positivos? Bom, o leitor deve ter notado que da lista atrás apresentada dos países com maior bolha especulativa no mercado imobiliário não constam nem o Japão nem a Alemanha - a segunda e terceira economias mundiais, respectivamente -, cujo crescimento económico não foi, nos últimos anos, induzido por este mercado. O que os tornou menos vulneráveis a uma deterioração da confiança dos consumidores. O problema é que estas duas economias não têm revelado um dinamismo capaz de «puxar» o crescimento global... ainda que o Japão, depois de quase 10 anos de grandes dificuldades, parece ter melhorado de «saúde», e de forma sustentada. E que, na Alemanha, o sector privado - empresas e trabalhadores - esteja a tentar tornar a economia mais competitiva (o que obriga a sacrificar algumas regalias agora - concorrência do leste europeu, a quanto obrigas!...) o que, pelo menos a médio prazo, deve proporcionar resultados positivos ao nível do investimento e da criação de emprego. No entanto, pode ser ainda cedo para contarmos com ambos já em 2006... pelo que, se a confiança dos consumidores norte-americanos não cair e o preço do petróleo, pelo menos, não subir, a economia global poderá registar, em 2006, um soft landing. No caso contrário, um hard landing é o cenário mais provável, dada a já referida fragilidade dos fundamentals.

E nós? Bom, se a este cenário tão frágil a nível global somarmos os nossos problemas estruturais (endividamento dos agentes e fraca competitividade em áreas fulcrais como a qualificação dos recursos humanos, a fiscalidade, a legislação laboral, ou a burocracia do ambiente empresarial e do sistema judicial), logo se vê que a situação não irá continuar famosa... isto é, depois de uma estagnação virtual em 2005, outra (ou perto disso) em 2006 não pode ser descartada, com uma (infelizmente) certa subida do desemprego, para níveis a que desde há quase 20 anos não estamos habituados. Claro que a questão da redução do défice público continuará na ordem do dia, tal como a concretização (ou não) de um conjunto de reformas que o Governo deu mostras de querer realizar na esfera pública. Impopulares, mas muito necessárias. Veremos se haverá coragem para as passar à prática...

Termino formulando votos para que o Executivo possa conferir à competitividade fiscal a importância que ela merece: fulcral para, em conjunto com acções a empreender em áreas acima apontadas, poder melhorar a competitividade global da nossa economia.

Só assim a política económica não será amputada de uma vertente fundamental e serão de facto proporcionadas condições aos agentes para voltarmos a criar riqueza a um ritmo que nos permita voltar a melhorar o nosso nível de vida face à Europa - o que já não acontece desde 1999 (!)...

Um feliz ano de 2006 para todos, e que os maiores riscos atrás apontados não se concretizem, são os meus mais sinceros votos.

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