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Miguel Frasquilho 21 de Dezembro de 2010 às 11:32

2011

Final de um ano - uma altura sempre propícia a balanços e reflexões

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Final de um ano - uma altura sempre propícia a balanços e reflexões, bem como a perspectivar o que nos pode trazer o ano que está a chegar.

A nível global, a dualidade será a marca registada de 2011 - como já foi em 2010. Vejamos.

Se 2009 marcou o epicentro da crise cujos primeiros sinais remontam a 2007, o presente ano foi de recuperação: de acordo com o FMI, o crescimento mundial quase deverá atingir 5%, prevendo-se a continuação de um dinamismo apesar de tudo apreciável em 2011 (um crescimento do PIB do Planeta ligeiramente superior a 4%). Sucede que esta recuperação, bem como a sua consolidação no próximo ano, será feita a duas velocidades. Quer em globalmente, quer na Europa.

Na verdade, o FMI prevê que o mundo dito "avançado" cresça pouco mais de 2% contra os mais de 8% previstos para as economias ditas "emergentes". Que, assim, continuarão a ganhar peso, em especial a China, cujo crescimento se manterá na vizinhança dos dois dígitos (aproximando-se a passos largos para se tornar, provavelmente até ao final da década, na maior economia mundial) e que se deverá consolidar como um dos maiores financiadores do Ocidente (já é o maior financiador externo dos EUA, estando cerca de 40% da dívida pública norte-americana em mãos chinesas). Ou seja, mais um passo no sentido da perda de influência dos "países avançadas" ("submergentes"?....) e da mudança do poder para os "emergentes", sobretudo a Ásia e, em particular, a China. Afinal, quem paga… manda.

Já na Zona Euro, os países do centro (ironicamente, em redor do "motor" que continuará a ser a Alemanha, apesar do menor dinamismo previsto) deverão crescer bem mais que os da Periferia (onde se encontra Portugal), obrigados a corrigir o seu (forte) endividamento e a colocar em ordem as suas contas, postas em desordem por motivos diversos ("batota" com os números e desleixo total na Grécia; "buracos" da banca na Irlanda; rebentamento da bolha imobiliária - em que assentava maioritariamente o dinamismo da economia - em Espanha; Estado e sector privado a viver estruturalmente acima das suas possibilidades em Portugal).

E por isso a vida na Europa será particularmente difícil em 2011 - não só para a Periferia, porque o novo ano entra sem que os decisores políticos europeus (nomeadamente a Chanceler da Alemanha, Angela Merkel) tenham decidido de forma clara acabar com toda e qualquer especulação quanto ao futuro do euro: veja-se a decisão do último Conselho Europeu, de transformar o actual mecanismo temporário de ajuda a países em dificuldades num instrumento definitivo apenas em 2013, bem como a sua recusa em discutir sequer a emissão de dívida pública europeia (eurobonds)…

Portugal entra, assim, no novo ano com o credo na boca e na expectativa de ter (ou não…) que recorrer a ajuda externa. Aliás, na nova terminologia GIPSI (que sucedeu a PIIGS), depois do G (Greece) e do I (Ireland), já "ajudados", surge o P (isso mesmo, de Portugal) e só depois o S (Spain) e o I (Italy)… Ou seja, podemos ser os próximos da lista. Creio, porém que, se nenhum factor externo nos voltar a contagiar, recorrer ou não a auxílio do exterior é algo que está nas nossas mãos. A execução do Orçamento do Estado para 2011 em linha com o previsto será, em minha opinião, a chave. E já no princípio do ano. Não podem voltar a passar-se os descalabros das execuções de 2009 e 2010. Que foram, em conjunto com o facto - sobejamente conhecido - de vivermos, há quase quatro décadas, bem acima das nossas possibilidades (ou seja, endividando-nos), as razões por que sofremos, num instante, o contágio dos problemas financeiros gregos, primeiro e irlandeses, depois. Além disso, como não soubemos apresentar soluções credíveis a tempo, temos vindo a ser penalizados: os juros exigidos pelos nossos credores para nos continuarem a financiar subiram para níveis nunca vistos desde a adesão ao Euro e francamente insustentáveis. É, pois, imperioso que nos "desendividemos", um processo que, claramente, nos foi imposto de fora (lá está, quem paga, manda…) e que, infelizmente, ainda não teve sucesso em 2010: a seguir ao PEC original ainda vieram o PEC-2 e o PEC-3, sempre com medidas de austeridade adicionais numa tentativa, mal sucedida, de acalmar quem nos financia (esses agora-tão-demoníacos mercados). O grosso dessa austeridade começará a ser sentido em 2011, que se perspectiva, assim, bem mais difícil do que 2010 para os Portugueses. Os impostos tornarão a aumentar (e como a economia agradeceria que fosse a última vez…), as pensões serão congeladas, várias prestações sociais serão cortadas e há ainda essa novidade de os salários na esfera pública serem cortados (era fatal que lá chegássemos, como bem adverti em várias ocasiões, de que destaco o XXXIII Congresso do PSD, em Abril último, perante a incompreensão e a estupefacção de muitos analistas e comentadores que, agora, salvo honrosas excepções, devem ter sido cometidos por um conveniente ataque de amnésia…). Creio bem que, apesar de tudo isto ser conhecido, o impacto real, a acontecer já em Janeiro, será muito duro. Arrisco-me a prever que os Portugueses, em média, ainda não perceberam o que os espera… Tudo somado, continuaremos a empobrecer, a recessão será real, o desemprego continuará a aumentar.

E por isso, tão importante como mostrarmos ao Mundo que sabemos pôr as contas em ordem, é apostar decididamente numa estratégia que nos torne mais competitivos e nos coloque na rota do crescimento. Espero bem, como Português, que estes sinais sejam visíveis em 2011 - e, mesmo que o sejam, já vêm tarde…

Há uma vertente externa que não podemos nem conseguimos controlar. Mas, no que está nas nossas mãos, apesar de as dificuldades parecerem não ter fim, não podemos voltar a falhar. É mesmo preciso mudar - sem o que a rota de definhamento, desilusão e desânimo que vivemos não será invertida, como todos desejamos.


Nota: Desejo a todo o Jornal de Negócios, bem como a todos os leitores, um Santo e Feliz Natal, e um 2011 o melhor possível.

Economista
Ex-Secretário de Estado do Tesouro e das Finanças
miguelfrasquilho@yahoo.com
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