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Nuno Garoupa 23 de Dezembro de 2010 às 12:08

2011, a esquerda e a direita

O que diria um partido socialista se um governo de centro-direita declarasse o estado de alarme

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(1) O que diria um Partido Socialista se um governo de centro-direita declarasse o estado de alarme para militarizar um determinado sector económico, suspender direitos fundamentais dos trabalhadores e resolver um problema laboral aplicando uma lei militar pré-constitucional (isto é, na linguagem desse partido socialista, uma lei fascista)? O que diria a esquerda socialista se um governo de centro-direita, em nome de uma duvidosa consolidação orçamental, reduzisse de forma significativa salários, prestações e apoios sociais importantes? O que diriam os líderes socialistas se um governo de centro-direita flexibilizasse a legislação do trabalho para satisfazer interesses políticos e económicos estrangeiros? Não é preciso adivinhar. Basta ouvir o que diz a esquerda radical. Bastou ouvir o candidato presidencial Manuel Alegre antes de ser candidato presidencial. Bastou ouvir José Sócrates quando andou a acusar o PSD de querer desmantelar o Estado Social.

(2) Acontece que todas estas medidas foram aprovadas e implementadas por governos socialistas em Portugal e em Espanha. As mesmas medidas que os partidos socialistas em Portugal e em Espanha rejeitariam sem apelo nem agravo caso estivessem na oposição. A incoerência é tão óbvia que muitos "intelectuais" socialistas sentem necessidade de contar a história da cigarra: a culpa é dos especuladores, dos mercados financeiros, da crise internacional, da banca, dos empresários, da pesada herança que os governos da direita deixaram em 2004 (em Espanha) e em 2005 (em Portugal), do neoliberalismo norte-americano, do Bush, do Obama, da senhora Merkel, da falta de solidariedade dos eleitores alemães... de todos e todos, menos da incompetência e da mediocridade dos socialistas que governam há quase sete anos em Espanha e há quase seis anos em Portugal.

(3) Infelizmente para os partidos socialistas, o eleitorado parece perceber a incoerência intelectual, a improvisão, a falta de estratégia e de políticas públicas, e a absurda hipocrisia ideológica da sua gestão económica actual. É evidente que a crise em que vivemos desde 2008 não acabou com o neoliberalismo como anunciaram os gurús da esquerda peninsular, mas desabou na cabeça dos partidos socialistas que sofrem hecatombes eleitorais sem precedentes. Foi pouco discutido na imprensa portuguesa, mas o Partido Socialista da Catalunha acaba de ter o pior resultado da sua história nas eleições legislativas do passado dia 28 de Novembro. Ora foi precisamente na Catalunha, em Outubro de 2003, que começou o ciclo da hegemonia socialista na península, seguido da vitória de Zapatero em Março de 2004 e da maioria absoluta de Sócrates em Março de 2005.

(4) Quando ficou claro o destino eleitoral dos socialistas ingleses ou alemães, os respectivos partidos dividiram-se, promovendo um debate interno, e mesmo desafiando os líderes instalados. Nada disso se passa em Portugal ou em Espanha. Por duas razões. As sinecuras do regime dependem das lideranças centralizadas; ninguém ousa criticar sem perder o tacho; apenas quem já perdeu o tacho critica. Como dizem os espanhóis, "quem se mexe não fica na fotografia." Ao mesmo tempo, o PS acha que pode fazer com Sócrates o que fez com Guterres. Depois da inevitável hecatombe eleitoral "à la Catalunha", culpa-se Sócrates e exactamente a mesma gente de sempre continua para novas núpcias. Como fizeram com um êxito muito assinalável em 2002 com Guterres.

(5) Se o desastre dos socialistas na Catalunha e, em breve, em Espanha (agora nas sondagens mais de quinze pontos atrás da direita) devia fazer pensar o PS, os resultados históricos da direita na Catalunha (os dois partidos da direita catalã tiveram o melhor resultado eleitoral de sempre) também merecem reflexão. Ganharam sem projecto, sem dizer o que querem fazer de diferente dos socialistas, com a demagogia do reformismo sem custos, jogando apenas com a erosão da popularidade socialista. Como dizem alguns comentadores, tiveram muito juízo, mas agora falta-lhes um mandato claro de mudança que não foi nem explicado nem pedido ao eleitorado. É evidente que a direita está contente por ganhar porque, mesmo em crise, existem "jobs for the boys". Também é verdade que quando a direita segue exactamente as políticas actuais do PS ganha-se em coerência ideológica. Mas isso sabe a muito pouco para um Portugal que estará estagnado até 2020!

(6) 2011: não é preciso fazer sondagens para saber que o PS está de saída e o PSD de regresso ao poder. O que não se percebe muito bem é que diferença isso faz para a maioria dos portugueses que não são "boys" nem "girls" do PSD e do PS. O líder do PSD fala muito de reformismo, como aliás falava Durão Barroso em 2002. Mas quando passamos da retórica aos actos, o que se tem visto é a mesma lógica de sempre, mais do mesmo. Nas comissões para avaliar as PPP e a execução orçamental. Na nomeação para o Tribunal Constitucional. Na lei do financiamento dos partidos políticos. Aguardemos pois pelo novo ano de 2011 para ver se muda alguma coisa!


Professor de Direito da University of Illinois
nuno.garoupa@gmail.com
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