Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião

A difícil constatação do óbvio

O século XXI surge desprovido de ideologias para os novos tempos e carregado de instituições da sociedade industrial que não se adaptaram à nova realidade, aos novos comportamentos, às novas tecnologias, às novas formas de organização familiar e social, enfim, às novas necessidades e desejos globais.

  • Partilhar artigo
  • ...

O modelo económico e social europeu está definitivamente falido. As teorias económicas com base na intervenção do Estado na economia que serviram os propósitos da Europa pós-II Guerra Mundial, não acompanharam o ritmo alucinante da evolução da sociedade, em pouco mais de meio século. A sociedade agrícola foi o paradigma durante mil anos, a sociedade industrial, durante cem anos, a sociedade de serviços e global está a mudar em apenas meio século. O século XXI surge desprovido de ideologias para os novos tempos e carregado de instituições da sociedade industrial que não se adaptaram à nova realidade, aos novos comportamentos, às novas tecnologias, às novas formas de organização familiar e social, enfim, às novas necessidades e desejos globais.

Vivemos tempos de inquietação e incerteza, mas interessantes pela oportunidade única que a actual depressão económica, com decréscimos reais do PIB e aumento das taxas de desemprego, nos oferece, para sermos forçados a repensar e desenhar novos paradigmas, sob pena de perda da coesão social no curto prazo.

Há discussões que se evitam e que perigosamente se adiam, como a da sustentabilidade da Segurança Social e a sua urgente reforma, perante a estrutura da natalidade dos finais do século XX e início do século XXI, que não deixam qualquer margem para manter o actual sistema.

Parece haver uma inércia das instituições nacionais e supranacionais perante novos problemas estruturais que a crise veio revelar, pois continuamos a procurar resolver esses problemas com velhas soluções conjunturais, que não funcionam, já por diversas vezes provado no terreno, em Portugal, na Grécia ou em Espanha. A economia não é uma ciência testável em laboratório, trata-se de uma ciência social e não é um fim em si. É um meio para atingir patamares de crescimento que permitam desenvolver o bem-estar social. Todas as políticas de austeridade apontam no sentido de aniquilar a procura interna dos países europeus mais fragilizados pela crise, aumentando as insolvências de empresas e das famílias. Tudo isto em nome do pagamento de uma dívida pública causada pela própria ineficiência acumulada do Estado, que sempre viveu para lá das suas reais possibilidades. Não foram as famílias e as empresas. Ensinava-se nas faculdades de economia nas universidades de todo o mundo, que o investimento mais seguro era em dívida pública porque os países tinham autoridade monetária autónoma e caso faltasse dinheiro, imprimia-se mais. Assim nunca faliam, ao contrário dos outros agentes económicos.

Não podemos continuar a sustentar tanto Estado e sobretudo a sua ineficiência e desresponsabilização. Urge repensar as funções do Estado e reduzir aquelas que são as que os privados não intervêm. Só com uma redução para valores de 10% do PIB, será possível que os agentes famílias e empresas possam duplicar o seu rendimento disponível, aplicando-o na dinâmica do consumo e do investimento. O Estado deve ser apenas um regulador efectivo e intervir em áreas como a justiça e a segurança. Praticamente todos os restantes serviços, de utilidade pública, podem ser prestados por privados, reservando um papel regulador e de controlo de qualidade ao Estado.

A Europa só terá uma solução no curto prazo – assegurar a redução do peso do Estado nos diversos países e avançar para a uniformização das políticas fiscais nos estados membros, com iguais escalões e taxas de tributação nos impostos directos e aplicar idênticos impostos indirectos, para funcionar como um todo competitivo e poder manter uma moeda única. O Euro só poderá ser sustentável se a política fiscal for comum. Caso contrário, a Europa, enquanto comunidade, dará dois passos atrás, correndo o risco de se tornar novamente apenas um continente com países autónomos.

Director do ISG - Instituto Superior de Gestão

Ver comentários
Saber mais opinião
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias