Leonel Moura
Leonel Moura 15 de janeiro de 2016 às 00:01

O escorpião e a tartaruga

O candidato Marcelo Rebelo de Sousa diz bem do atual primeiro-ministro António Costa e mal do anterior Governo do seu próprio partido. Estranho? Mera tática eleitoral? Sim. Mas é muito mais do que isso.

Se Marcelo chegar a Presidente terá como prioridade afastar Passos Coelho e puxar o PSD mais para o centro, mais para a social-democracia. Para quê? Para poder derrubar o Governo da esquerda e permitir que a direita volte ao poder.

 

Confuso? Sim, mas é desta forma que funciona a cabeça de Marcelo. E não é preciso estar dentro dela. O homem sempre foi assim e vem de longe. Do tempo em que Marcelo Caetano andava com ele (literalmente) ao colo. Do tempo em que foi oposição por dentro do velho regime e desde então apoiante dos que frequentemente se colocam por fora do novo regime.

 

Não por acaso Marcelo é conhecido por ser um intriguista, um manipulador, um esquemático. É essa a ideia que tem da política. Lançar a confusão, além de lhe dar um evidente gozo, é a maneira de garantir controlo. Veja-se como, nesta campanha, lançou a maior confusão no campo da direita. Muita gente não sabe o que fazer. O "seu" candidato passa os dias a dizer mal de tudo aquilo que se fez e acreditou nos últimos anos. Os mais burros ou distraídos acham que ele é um génio e está simplesmente a enganar o povo de esquerda para garantir a vitória à primeira volta. Os mais espertos não estão a gostar de tanta crítica, do acintoso afastamento dos partidos da direita, do não querer ver os rostos do anterior governo. Porque mesmo como tática isso significa uma afronta ao Governo de Passos Coelho. Aos seus ministros, à sua ação, ao que, na sua perspetiva, se atingiu para salvar o país. Marcelo desfaz a narrativa da direita. Desgasta os partidos da direita. Se for eleito, com base neste tipo de comportamento, fica com um poder enorme para exigir mudança, sobretudo no PSD. Afinal, os votos em Marcelo são também votos contra o Governo anterior.

 

Perceba-se. Marcelo não quer ir para Belém para tomar chá. Mas para fazer a única coisa que se faz nesse palácio. A única coisa que aliás ele sabe fazer e sempre fez. Política. E o que é fazer política na sua perspetiva? É permitir que a direita volte ao poder o mais rápido possível.

 

Bem sei que não se pode prestar muita atenção às palavras de um candidato que anda displicentemente pelo país com o bolso cheio de toalhetes desinfetantes. Diz, a cada momento, o que acha que deve dizer e não aquilo que realmente pensa. Mesmo assim há um argumento bastante interessante que tem repetido amiúde. Afirma Marcelo que o país está dividido, entre esquerda e direita, e a sua missão é unir. Ora a esquerda, mesmo historicamente desunida, conseguiu gerar uma forma de colaboração e funcionamento num novo quadro democrático. É a direita que ainda não foi capaz de encontrar o seu lugar. Contínua rancorosa e disfuncional. A fratura do país é um problema exclusivo da direita. Não da esquerda que faz o que lhe compete. A necessidade de expurgar o PSD da direita radical, tornando-o mais aceitável, é uma evidência. Só dessa forma pode reconquistar o poder.

 

Marcelo tem tudo pensado. Não conseguiu mudar o PSD por dentro quando foi seu presidente. Vai tentar fazê-lo por fora a partir de Belém, se lá chegar. Percebe-se. Como ele diz é preciso ser da esquerda da direita. Mas é isso bom para o comum dos portugueses? É claro que não seria mau ter uma direita mais civilizada. Mas a questão não é essa. Marcelo presidente não vai só lançar a confusão no PSD. Vai lançar a total confusão no país inteiro.

 

Há uma fábula que explica bem o assunto. Para quem não conhece, reza assim. Um escorpião está na margem de um rio com vontade de o atravessar. Sem saber nadar vê uma tartaruga por perto e diz-lhe: podias levar-me para a outra margem. Ao que esta responde: tenho medo que me piques. O escorpião esclarece: se eu fizer isso morremos os dois. A tartaruga cede. A meio do rio o escorpião pica a tartaruga. Atónita, esta pergunta: porque fizeste isto? Porque é da minha natureza, responde o escorpião.

 

Marcelo é um escorpião. É da sua natureza picar mesmo quem lhe dá a mão. Mais do que Passos Coelho, sua primeira vítima, arriscamo-nos a que a tartaruga seja afinal Portugal e nos afundemos todos.

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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