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Luís Marques Mendes 26 de Junho de 2016 às 21:33

Notas da semana de Marques Mendes no Negócios

A análise de Luís Marques Mendes ao que marcou a última semana da vida nacional e internacional. Os principais excertos da sua intervenção na SIC, nos temas escolhidos pelo Negócios.

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O BREXIT - RISCO DE NOVA RECESSÃO

1. Recorde-se como é que tudo começou.

• Há cerca de três anos, para resolver divergências dentro do seu partido, David Cameron prometeu este referendo.

• Três anos depois, não resolveu nada. E criou um problema de proporções gigantescas para o Reino Unido (RU), a Europa e o Mundo.

• Esta é a imagem da ligeireza de comportamento de Cameron. Todos tentam desdramatizar mas esta é uma decisão dramática.

 

2. Riscos para o Reino Unido

a) Risco de desintegração - O RU está, provavelmente, a caminho do fim.

b) Risco de enfraquecimento e de isolamento - Fora da UE, o RU nunca será tão forte. Até porque tinha o melhor de dois mundos - tinha as vantagens de estar na UE sem ter os constrangimentos de estar no Euro.

c) Risco de divisão interna. De um lado, estão os sectores mais dinâmicos da sociedade, os jovens e as zonas urbanas, a favor da Europa; do outro lado, as zonas rurais, contra a UE.

 

3. Riscos para a Europa - no plano político:

a) A UE perde equilíbrio. O RU ajudava a equilibrar o excesso de hegemonia alemã.

b) A UE quebra a sua unidade. Até agora era vista como uma realidade indestrutível. Muitos queriam entrar e ninguém saía.

c) A UE abre um precedente perigoso, reforçando a tentação de novos referendos, os nacionalismos e o poder dos eurocépticos.

d) E a UE fica enfraquecida face a outros blocos mundiais, seja a Rússia ou a China, porque perde a sua segunda maior economia.

 

4. Agora, o maior risco é o risco económico. Há o sério risco de uma nova recessão global.

• Está instalada a INCERTEZA na Europa. E vai estar durante muito tempo.

• Assim, ninguém investe no RU mas também não investe na Europa.

• Este é o caminho para uma nova recessão económica. Regressa o pesadelo de 2008.

• Conclusão: O resultado do referendo pode não ser a bomba atómica. Mas é um terramoto de consequências imprevisíveis. n

 

PORTUGAL É DOS QUE MAIS SOFRE

1. Portugal é seguramente dos países que mais podem sofrer com esta situação. Porque é um país periférico; porque tem uma economia anémica; porque ainda está a sair de uma crise e leva logo com outra crise em cima.

 

2. Que consequências sofre Portugal?

a) No imediato, sofre a turbulência das bolsas e dos mercados (o que é mau para as empresas, o sistema financeiro e o Estado);

b) No médio prazo, pode sofrer as ondas de choque de uma recessão global. Há até um estudo do FMI que diz que o nosso PIB pode ser o mais afectado de todos. Em particular:

• Sofre uma queda das exportações.

• Sofre com a fuga de investimento.

• Sofre no turismo com a libra (o turismo inglês pesa muito no Algarve e Madeira).

• Sofre no desemprego.

• E pode sofrer ainda mais se houver a tentação de criar uma Europa a duas velocidades, não estando nós no pelotão da frente.

• Em suma: Haverá antes e depois do Brexit.

 

3. Uma única vantagem se pode antever: as sanções pelo incumprimento do défice. Se a Europa pensava aplicar-nos sanções, acho que essa ideia vai prescrever. Uma Europa com este pesadelo não vai querer criar mais tensões e clivagens internas. n

 

O QUE DEVE FAZER O GOVERNO?

Neste quadro, julgo importante três coisas:

1. Primeiro: O Presidente da República fez bem em convocar o Conselho de Estado para o dia 11. E deveria ponderar agora fazer uma comunicação ao país, na sequência do Conselho de Estado, para explicar pedagogicamente aos portugueses toda a situação. Os riscos e as oportunidades que temos. As cautelas que devemos ter.

 

2. Segundo: A palavra-chave para o Governo é prudência. O Governo deve ser prudente na política económica e orçamental.

• Ninguém sabe o que o futuro nos reserva.

• Convém haver muita prudência.

• Convém, em especial, não repetir o erro de 2009. Com uma recessão à porta, aumentou-se a despesa e diminuiu-se a receita.

• O tempo não é para eleitoralismos. Este tempo exige sentido de Estado.

 

3. Finalmente, os partidos, sobretudo os partidos do arco europeu, devem entender-se sobre as posições de Portugal no próximo quadro europeu.

• O tempo não é de soluções federalistas, nem da criação de directórios. O tempo é de uma Europa mais próxima das pessoas.

• Mas o tempo é de a União Europeia perceber que algo tem de mudar. Primeiro, porque o desencanto com a Europa é grande; depois, porque se nada for feito é o próprio projecto europeu que está em risco.

• Por fim, é do interesse vital de Portugal não afrontar nem provocar o RU. Há meio milhão de portugueses a viver em Inglaterra. E é o nosso mais antigo aliado. n

 

VENDA DO NOVO BANCO EM RISCO

Há várias novidades sobre o Novo Banco:

1. Primeira - Estamos a cerca de um mês da fase de apresentação de propostas para a compra do Novo Banco.

• Há seis concorrentes - 3 bancos (Santander, BCP e BPI Caixabank) e 3 fundos, um dos quais a Apollo.

• E há o risco de o banco não ser vendido se as propostas tiverem um valor baixo. Para não ser vendido ao desbarato. O referendo no RU também em nada veio ajudar.

 

2. Segunda - Com venda ou sem venda, há uma outra novidade: Eduardo Stock da Cunha vai abandonar funções já em Julho. Em Agosto já estará em Londres, no Lloyds, para ocupar um lugar de grande relevo.

• É uma decisão relativamente natural. Já estava pré-anunciada desde Fevereiro. Só não se sabia quando se concretizaria.

• E manda a verdade que se diga que Stock da Cunha fez um excelente lugar. Reduziu os custos do Novo Banco em 40%, reduziu a factura com pessoal em 30% sem provocar conflitos sociais e aumentou substancialmente as receitas e a liquidez do banco.

• Numa palavra: foi discreto, eficaz e independente. Mostrou como deve ser um banqueiro credível. Falar pouco e fazer muito.

 

3. Finalmente, quem será o sucessor?

• A decisão é do Fundo de Resolução e ainda não está tomada.

• Há, pelo menos, dois nomes na calha: António Ramalho, actual presidente das Infraestruturas de Portugal, e João Nuno Palma, actual administrador da CGD. Ambos competentes e experientes. 

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