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Francisco Mendes da Silva 26 de Julho de 2016 às 21:05

Qual é a pressa?

Poucas coisas são tão capazes de nos convencer de que somos mesmo governados por uma "geringonça" como este inusitado aumento da temperatura política, que lembra o sobreaquecimento repentino do motor de um automóvel a reclamar reparação.

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António Costa preparou os deputados do PS para uma rentrée atribulada, Passos Coelho avisou os seus de que "vem aí o Diabo" e Marcelo chamou toda a gente a Belém para derramar água sobre a fervura. A que propósito assistimos a isto? Será que o primeiro-ministro quer, como se diz por aí, gerar um ambiente propício a uma crise política? Não é uma tese rebuscada.

 

Dificilmente este Governo durará quatro anos, tal como está. Pela simples razão de que o PS depende de dois partidos que estão numa situação insustentável a prazo: não são nem Governo nem oposição. Um estatuto que é impensável levar a eleições. Que história poderia então ser contada pelo BE e pelo PCP: defendem a continuação do poder que foram viabilizando ou a derrota do Governo de que nunca fizeram parte? Para terem uma plataforma eleitoral discernível, aqueles partidos terão, mais cedo ou mais tarde, de se decidir a integrar este Governo do PS ou a romper definitivamente com ele.

 

O risco deste dilema à esquerda, para o PS, é o de não controlar a agenda da instabilidade política. O PS não pode deixar que seja o BE ou o PCP a escolher a solução, a oportunidade e o motivo. Tem de se antecipar. Tem de ser o PS a criar a ocasião e o contexto que forcem a clarificação. Isso implica um momento de tensão com os partidos à esquerda ou com Bruxelas (a negociação de um orçamento, por exemplo), mas tal não é suficiente: é necessária, pelo menos, a ilusão de que as coisas estão a correr bem - que a economia está a crescer e a austeridade a diminuir. Só assim Costa terá controlo da situação, seja para convencer a esquerda a participar no esforço da governação seja para, em nome da "Europa", enxotar os parceiros em eleições antecipadas.

 

O obstáculo a esta estratégia é que porventura não faltará muito para ser impossível alimentar qualquer ilusão de sucesso. O programa do PS só dá sinais de fracasso. Há cada vez menos crescimento, o investimento está parado e o desemprego não desce. Além disso, Bruxelas continua irredutível e o Governo mostra um afã austeritário a condizer, aliás com uma receita orçamental bastante ortodoxa: aumento de impostos, corte no investimento público e nas prestações sociais, atraso no pagamento a fornecedores, retenção de reembolsos, cativações que deixam os serviços essenciais à beira da ruptura. Se este é um Governo de esquerdistas keynesianos, terei de passar as férias a reler os manuais.

 

Num cenário assim traçado, Costa pôs-se a pensar: talvez seja avisado reforçar as condições de legitimidade mais cedo do que se previa, antes da tempestade. O PS pode achar que as sondagens lhe dão hoje essa margem de manobra. Sobre elas, porém, recomenda-se prudência. As legislativas foram há oito meses. Ninguém quer ou pensa com base na perspectiva de eleições a breve prazo. Qualquer pessoa sem orientação partidária definida que não deseje sobressaltos políticos tende a declarar-se apoiante do "status quo". A não ser, é claro, que a instabilidade seja criada pelo próprio "status quo". O PS tem a vantagem natural do incumbente, que tem tanto de inércia psicológica como de preferência activa, e que poderá dissipar se, gerando uma crise artificial, confessar que o que o move não é, afinal, mais do que a mera eternização no poder.

 

Advogado

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