Luís Marques Mendes
Luís Marques Mendes 14 de maio de 2017 às 21:32

Notas da semana de Marques Mendes

As notas da análise semanal que Marques Mendes faz na SIC, onde diz que o Governo quer acordar tudo com os seus parceiros antes das autárquicas e o PCP quererá deixar para depois do dia das eleições.

Portugal ganha na Eurovisão

 

  1.       No espaço de um ano temos vindo a fazer história: ganhámos um Europeu de Futebol, que nunca tínhamos ganho; elegemos um Secretário Geral da ONU, o que nunca imaginámos; e ganhámos agora o festival da Eurovisão que em 53 anos nunca tínhamos ganho.Não há certamente grandes traços em comum em todas estas vitórias a não ser duas coisas: tudo isto é história e tudo isto significa que talento não nos falta.
  •          Às vezes falta-nos organização e confiança. Mas talento e qualidade não nos falta. Como se viu agora na música.

 

  1.       Há anos que Portugal quase não ligava ao festival da Eurovisão. Este ano tudo foi diferente. O cantor e a canção transforaram-se num fenómeno nunca visto de popularidade e sucesso. Nas redes sociais, nas casas de apostas, na imprensa internacional. Porquê? Porque fomos diferentes.

a)      Primeiro, na canção. É uma canção diferente do tradicional. Anti-festivaleira. Uma canção romântica que impressiona pela simplicidade e pela sensibilidade.

b)      Depois, no intérprete. Salvador Sobral gera empatia à primeira vista. Seja pela voz, seja pela fragilidade física, seja pela autenticidade, seja pelo discurso simples, a verdade é que é um caso especial de popularidade e de qualidade. Fez a diferença.

 

 

O centenário de Fátima

 

  1.       Ao longo destes 100 anos, Fátima passou por várias fases:

a)      No início, em 1917, Fátima foi sobretudo um fenómeno de forte religiosidade popular marcada por 3 realidades:

  •          A guerra – Estávamos em plena 1ª Guerra Mundial e Portugal passava uma fase de grande sofrimento.
  •          A perseguição da 1ª República à Igreja Católica. Só nesse ano 6 bispos tinham sido expulsos pelo poder político de então.
  •          E, finalmente, a Revolução Russa que acontece no mesmo ano e que fica no imaginário como um dos segredos de Fátima.

b)       A 2ª fase é a fase das dúvidas da Igreja sobre o fenómeno das aparições e da "intervenção " do Estado Novo. Durante muitos anos a Igreja desconfiou das aparições.

  •          Só em 1930 há, finalmente, o reconhecimento das aparições como um fenómeno divino.
  •          E esta é também a fase que corresponde à tentativa do Estado Novo se apropriar politicamente de Fátima e de fomentar o anti-comunismo.  É o tempo do Portugal visto como Fado, Futebol e Fátima.

c)      A 3ª fase ocorreu há 50 anos, em 1967, com a visita de Paulo VI. O primeiro Papa a visitar o Santuário.

  •          É uma visita que o regime de Salazar não desejava. Paulo VI era uma figura não grata para o regime, por causa de uma visita à Índia; estávamos em plena guerra colonial e o Papa apresentava-se como mensageiro da paz.
  •          Mas é uma visita decisiva – consagra Fátima, pela primeira vez, no plano além fronteiras.

d)      A 4ª fase ocorre com João Paulo II. O Papa que veio três vezes a Fátima. É a fase da internacionalização definitiva de Fátima. Foi a definitiva consagração de Fátima como um dos locais mais importantes de peregrinação de todo o mundo.

e)      A 5ª fase é esta: a comemoração dos 100 anos das aparições, com a vista do Papa Francisco e sobretudo com a canonização de dois dos três pastorinhos de Fátima.

 

  1.       Em todas estas fases há um ponto em comum: o Culto Mariano que tem uma forte implantação em Portugal. A primeira designação de Portugal é a de Terras de Santa Maria. A Restauração da Independência em 1640 fica associada a Nossa Senhora da Conceição, padroeira e rainha de Portugal. E ainda hoje mais de 40% dos locais de culto em Portugal têm o nome de Nossa Senhora.

 
  

O Papa do povo

 

  1.       Nesta visita, o Papa Francisco mostrou, uma vez mais, as principais características que fazem dele um Papa diferente.

a)      A sua enorme popularidade e simpatia, quer nos crentes, quer nos não crentes. A sua presença em Portugal não deixou ninguém indiferente. Nos crentes gerou entusiasmo; nos não crentes suscita respeito e até admiração.

b)      A sua grande simplicidade. Isso vê-se nos gestos (por exemplo a despedir-se da Virgem de lenço mão como qualquer peregrino); mas também nas mensagens, ao defender uma Igreja "pobre nos meios mas rica no amor".

c)      A sua cultura de proximidade. Ele que antes de ser Papa defendeu uma Igreja aberta ao mundo e a levar a esperança a todas as periferias (sejam as do sofrimento, da injustiça, da marginalização). Falou de esperança mais de 10 vezes

d)      E, finalmente, a coragem e a frontalidade da mensagem. Foi o que evidenciou, por exemplo, naquela frase marcante: Nossa Senhora não é a "santinha a quem se recorre para obter favores a baixo preço."

 

  1.       Coragem – Esta é, porventura, a característica mais marcante deste Papa e aquela que mais impressiona crentes e não crentes.
  •          Coragem nas mudanças dentro da Igreja. É o caso da relação da Igreja com os divorciados no acesso à comunhão; ou com os homossexuais; mas são também as posições frontais do Papa contra "esta economia que mata", contra o neo-liberalismo e a exclusão social.
  •          E é esta coragem que lhe tem granjeado também vários inimigos, dentro e fora da Igreja. Interessante é a forma como o Papa responde a isso, quando questionado sobre os seus inimigos: "Deixem-nos fazer o seu trabalho que eu faço o meu".
  •          É de facto um Papa diferente.

 

O Benfica do tetra

 

  1.       Também aqui aconteceu história. Mas desta vez história apenas para o Benfica e para os Benfiquistas. É a primeira vez que o Benfica ganha 4 campeonatos seguidos.

 

  1.       Aqui chegados, há duas questões a considerar:

a)      O Benfica foi um justo vencedor? Penso que sim.

  •          Primeiro, porque num campeonato que foi talvez dos mais fracos dos últimos anos, o Benfica foi o clube mais regular – esteve em primeiro lugar desde a 5ª jornada.
  •          Depois, porque os seus adversários directos, sobretudo o FCPorto em momentos em que o Benfica tergiversou, não souberam aproveitar as oportunidades.

b)      A segunda questão é que está a suceder ao Benfica, hoje, o que durante muitos anos aconteceu ao FCPorto.

  •          Mudam os treinadores, mudam os jogadores, mas o Benfica ganha à mesma.
  •          É a vitória da máquina, da estrutura e da organização. E nesse plano o Presidente Luís Filipe Vieira está a fazer história no Benfica.

 

  1.       Agora, o próximo ano vai ser um ano de grande tensão entre os três grandes:
  •          Por um lado, o Benfica vai querer ganhar o Penta.
  •          Por outro lado, Sporting e Porto vão tentar interromper esta caminhada vitoriosa dos Benfiquistas.
  •          Adivinha-se um próximo campeonato ainda mais competitivo e tenso do que este.

 

 

O orçamento para 2018

 

  1.       Ponto prévio: falando em boas notícias, há que realçar que o INE divulgará amanhã os resultados do crescimento do PIB no primeiro trimestre deste ano. Ao que parece, são resultados muito positivos.
  •          Ao que parece, designadamente segundo algumas instituições, estima-se um crescimento superior a 2,4% neste trimestre, em comparação com o mesmo trimestre de 2016, com aceleração das exportações e sobretudo aceleração do investimento, e um menor crescimento do consumo.
  •          Se o INE confirmar estes dados, como se prevê, podemos estar perante o melhor resultado desde há 7 anos (2010), com uma estratégia de crescimento correcta (alavancada pelo investimento e pelas exportações), mas que curiosamente é a oposta àquela que o Governo defendia no passado.

 

  1.       Orçamento para 2018 – Ao que veio a público, o Governo quer acordar tudo com os seus parceiros antes das autárquicas e o PCP quererá deixar para depois do dia das eleições.

O que vai suceder? Algum braço de ferro? A meu ver uma coisa muito simples: vão acordar tudo o que é essencial e importante antes das autárquicas mas só vão divulgar o acordado depois das eleições.

a)      Primeiro: porque fazer um orçamento leva meses. Não se faz em 15 dias. Ora as autárquicas são a 1 de Outubro e o orçamento entra na AR no dia 15 de Outubro.

b)      Segundo: porque o que o Governo tem a acordar com os seus parceiros são, sobretudo, duas questões – descongelamento de carreiras da função pública e revisão dos escalões do IRS. Não parece difícil acordar antes das eleições.

c)      Terceiro: apesar de acordarem tudo antes das autárquicas, não farão qualquer divulgação e até dirão que nada está definitivamente fechado. Sobretudo para permitir que o PCP e também o BE tenham espaço de manobra para o discurso político que têm de fazer em campanha eleitoral.

 

 

 

A promessa de Cristas

 

  1.       Assunção Cristas surpreendeu esta semana com uma proposta de ampliação do Metro, criando 20 novas estações na Grande Lisboa. Foi, todavia, uma surpresa muito negativa.

a)      Primeiro: porque soa a campanha eleitoral. Porque cheira a oportunismo político. Fica a sensação de que Assunção Cristas só se lembrou disto agora porque é candidata em Lisboa.

b)      Segundo: porque prometer sem estudar e sem fundamentar é um péssimo princípio.

  •          Quanto custa esta ideia? Ninguém sabe. Nem a própria. O que se imagina é que nunca custará menos de 3 mil milhões de euros.
  •          Donde vem o dinheiro? Não está estudado.
  •          E para obter o dinheiro para estas obras, onde se corta? É que o dinheiro não é elástico.
  •          Sem respostas a estas questões, tudo não passa de propaganda eleitoral.

c)      Terceiro: iniciativas como esta só descredibilizam quem as faz. E não dão um voto. É pura ilusão pensar o contrário. As pessoas podem não ter cultura política mas não são destituídas. Já não alinham em promessas fáceis.

 

  1.       Conclusão: um tiro falhado. E a oportunidade para uma recomendação: estamos em ano de eleições. É melhor dar um desconto a todas as promessas que vão ser feitas nos próximos meses. Venham de onde vierem.

  

 

Greves na saúde e na justiça  

  1.       Greve dos médicos:

a)      Primeiro: teve o sucesso que se esperava. Ou seja, grande.

b)      Segundo: fica a sensação que podia ter sido evitada se tivesse havido um pouco mais de esforço de parte a parte: do Ministério e dos Sindicatos.

c)      Terceiro: as propostas dos médicos são legítimas, várias até justíssimas, mas atenção: é preciso conciliar justiça com sustentabilidade. É preciso haver equilíbrio e bom senso.

d)      Finalmente: espera-se que haja agora, depois da greve, o espírito de diálogo produtivo que não houve antes da greve.

 

  1.       Greve dos juízes (é a greve de que agora se fala para os próximos tempos):

a)      Os juízes têm total razão na reivindicação que fazem – estão há 6 anos à espera da revisão do seu estatuto.

b)      Mas não têm razão na ideia da greve. Por uma razão singular:

  •          É que os juízes são membros de órgãos de soberania. Porque os Tribunais são órgãos de soberania. E não é suposto os membros dos órgãos de soberania fazerem greve.
  •          Uma greve de juízes é praticamente tão absurda como uma greve de Ministros, Deputados ou do Presidente da República. São todos titulares de órgãos de soberania.
  •          Claro que houve 3 greves de juízes no passado. É verdade. Mas um erro corrige-se. Não se repete. E no momento em que os juízes fazem greve é sempre mais uma oportunidade para se desprestigiarem.
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